Mandetta à equipe: ‘No meio do caminho, uma pedra’ – ELIANE CANTANHEDE, ESTADÃO

Bolsonaro nas ruas foi forma de provocar a queda do ministro, mas Mandetta não caiu na armadilha, e enviou poema de Drummond a sua equipe

O presidente Jair Bolsonaro aproveitou o domingo para exercitar sua birra contra o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que na véspera alertou: “Se o sr. for para metrô ou ônibus em São Paulo (como chegou a dizer em entrevista), vou ser obrigado a criticá-lo”. Ao que o presidente rebateu: “E eu vou ter que te demitir”.

Como não havia logística para ir a São Paulo ontem, Bolsonaro decidiu fazer o teste no Distrito Federal mesmo, indo a padarias, mercadinhos, fazendo até fotos com criança. Evidentemente, uma forma de provocar a queda do ministro, mas Mandetta não caiu na armadilha.

Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta em coletiva na quarta-feira, 18
Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta em coletiva na quarta-feira, 18 Foto: Dida Sampaio/Estadão

A atitude do presidente foi considerada “óbvia”, um pretexto para a exoneração – que, aliás, provocaria um efeito dominó no Ministério da Saúde. Assim, Mandetta se recolheu, pedindo paciência à equipe com um poema de Carlos Drummond de Andrade: No Meio do Caminho. Resta saber o que o ministro dirá na coletiva de hoje à tarde, além de pedir desculpas à mídia. Na guerra contra o coronavírus e a morte, ela é a sua grande aliada.

Outra grande expectativa hoje é se Bolsonaro vai mesmo editar um decreto para liberar todas as profissões para trabalhar em meio à pandemia ou se foi só mais uma ideia jogada ao ar, enquanto confrontava Mandetta nas ruas.

Se não sair decreto nenhum, essa história é mais uma para a longa lista de coisas que o presidente diz e ninguém leva a sério, nem lembra depois. Se sair, a coisa vai ficar muito grave. Além da crise sanitária, teremos uma crise federativa: a União contra os Estados, o presidente contra governadores e prefeitos.

Como o ministro do STF Gilmar Mendes alertou Bolsonaro no sábado, basta que São Paulo, Rio e Minas desobedeçam uma medida legal tomada pelo Planalto para essa medida virar pó, letra morta. Os três Estados reúnem quase cem milhões de pessoas e os governadores João Doria (SP) e Wilson Witzel (RJ) não parecem interessados nem em quebrar a quarentena nem em cumprir decretos e maluquices de Bolsonaro numa hora de vida ou morte.

MEU COMENTÁRIO:

O Boçalnaro ou Bolsonero, como preferirem, está de saco cheio com um ministro, seu subordinado, que diverge de suas insânias, provocando tanto quanto pode, a ver se o mesmo se demite.

Pelo que se sabe até agora, Mandetta continuará divergindo e só sairá do cargo se for exonerado;

Para isso, o paranóico que finge nos presidir, teria que assumir o custo político de por para fora aquele que é, no momento, o único ministro com capacidade mental e profissional para continuar.

Se o saco do Bolsa está cheio, imagine o nosso, o povo, os eleitores, aqueles que não votaram nele (e não votaram no Haddad) ou votaram e se arrependeram, exceto a claque dos que o chamam de “mito”, e por aí já podemos imaginar o nível mental dessa claque.

Em qualquer regime, o poder civil só se sustenta se tiver apoio militar.

Por que Maduro não cai na Venezuela? Por que irrigou a cúpula militar com uma abundância de todos os níveis, dinheiro, permissão ao tráfico de drogas, corrupção, etc. E assim ele se sustenta.

E por aqui? Até quando os militares que ocupam os cargos com chefia de tropa efetiva, permitirão que o presidente siga em sua insânia, contrariando o mundo, em favor de seu projeto político?

Parece cada vez mais próximo o momento de uma definição dessa cúpula militar, decidindo se o mantém, confessando que lhes interessa que nada mude e tudo fique como está, ou removem a pedra do meio do caminho.


Mandetta à equipe: ‘No meio do caminho, uma pedra’ – ELIANE CANTANHEDE, ESTADÃO
Rolar para o topo