Máquina que banaliza o mal está funcionando bem no Brasil – JORGE COLI, FOLHA


Morte faz parte da engrenagem obscena que Bolsonaro promove na pandemia

No fim de maio, se antevia o apocalipse. Para evitá-lo, anunciava-se “lockdown”, medidas estritas, obrigação de confinamento. Doria e Witzel tentavam restaurar suas implausíveis virgindades políticas; lutavam contra Bolsonaro e Bolsonaro bufava contra os governadores.

Os franceses têm uma expressão que é mais ou menos assim: “Expulse o que é natural pela porta, e ele entra pela janela”. Ou seja, não adianta tentar fingir porque aquilo que você é de fato acaba sempre mostrando o rabo.

Veio o 1º de junho. De uma hora para outra, sem mais aquela, ferveu o desejo de liberar tudo. Comércio, shoppings, indústrias. A começar por concessionárias de automóveis. Nada mais urgente do que trocar de carro, não é?

Ah! sim: liberar, porém com cuidado, precauções, seguindo regras científicas. Pode pular no abismo, mas pule com precauções, cuidado, e de acordo com a ciência. Sem esquecer a máscara!

São “demandas das pessoas”, dizem as autoridades. Como não se quer destinar recursos para assistir aqueles que precisam, a solução fica sendo “desconfinar”. Morra quem morrer: a economia vem primeiro. Como vamos perder o apoio dos comerciantes e dos industriais, minha gente? As eleições estão aí!

No primeiro dia de “flexibilização”, Campinas, cidade em que moro, teve ruas no centro coalhadas de gente. Foi um estouro da boiada. Responsáveis, no rádio, ficaram desfiando o número local de mortos, com o cuidado de assinalar que, na maioria, são idosos e com “enfermidades prévias”. Paira nas declarações o subentendido de que, velhos e doentes, seria melhor serem eliminados. Já era mesmo o destino deles, mais dia menos dia.

Uma amiga infectologista me escreveu: “Não é o momento de nenhuma reabertura. Todas as nossas curvas (seja de casos novos, óbitos) estão em ascensão. Nosso sistema de saúde está prestes a atingir 100% de sua capacidade, parece crônica da morte anunciada”.

Os resultados são apavorantes. Não sabemos direito quantos foram os atingidos pelo vírus, porque o presidente procura bloquear informações e acaba borrando muita coisa. Cada dia, o bolo dos infectados cresce, assim como a pilha de mortos.

Sente-se como que a banalização da epidemia. A imprensa não reagiu muito, tenho a impressão. Tudo se passa como se essa abertura criminosa de governadores e prefeitos fosse ato normal.

No fim das contas, Bolsonaro ganhou. A pandemia passa a fazer parte das nossas desgraças, do mesmo jeito que o cupim, a saúva e o Romero Britto. Nós nos acomodamos com ela. Como nos acomodamos com a devastação da Amazônia e com a injustiça social.

Bolsonaro garante a quota de seus apoiadores graças a seu amor pela entropia, muitos já disseram, mas as consequências desse amor vão além.

Tatiana Roque publicou um ótimo artigo no site La Vie des Idées, do Collège de France, alta instituição científica e intelectual. Com propriedade, ela formula que vivemos, no Brasil, a “erosão interna da democracia”. Essa expressão explica muito, e tento aqui empregá-la para compreender algumas coisas.

Não se trata de golpe militar brusco sobre um governo eleito, como em 1964. Não é o momento para isso e nem há condições para que se comande uma ação do tipo. Mas, criando o caos em setores diversos, o presidente incentiva a desordem e o desrespeito às leis. Assim, os desmatadores não precisam se preocupar: controles e punições minimizados, e todos os números indicam que a floresta amazônica nunca foi tão destruída quanto agora.

A insistência em armar a população tem sentido igual: cabe a cada cidadão sua própria defesa, e não às instituições públicas. Viva o faroeste.

Sobre a pandemia? Ora, salve-se quem puder.

Enquanto isso, vamos nos habituando ao aparelhamento do Estado por militares e pelo autoritarismo arbitrário. Os líderes políticos menos escrupulosos entram na dança de rabo entre as pernas, e assistimos à mais perversa manipulação do poder, aquela oportunista que se infiltra.

O caos que Bolsonaro sabe promover é um dos principais instrumentos da erosão democrática e do avanço autoritário. Usa a balbúrdia como vacina contra a democracia, sem que fiquem claras todas as consequências disso. Não é fácil ficar atento às múltiplas instaurações de caos diversamente localizados, nem aos processos internos de aparelhamento autoritário, porque eles ocorrem em todos os lados. A máquina que banaliza o mal está funcionando bem no Brasil. Nem conseguimos contar as perdas provocadas pela pandemia. A morte faz parte dessa engrenagem obscena.

Jorge Coli
Professor de história da arte na Unicamp, autor de “O Corpo da Liberdade”.

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