Médico cubano, após fim do Mais Médicos, trilhou vida nova no Brasil – DRAUZIO VARELLA, FOLHA

Médico cubano, após fim do Mais Médicos, trilhou vida nova no Brasil
Com término do programa, José atuou como vigia e carregador, mas pandemia devolveu a ele sua profissão de origem

Negro alto e forte, José nasceu em Havana 34 anos atrás. Estudou enfermagem em Cuba e fez estágio obrigatório na Missão Milagres, convênio de assistência médica assinado entre Hugo Chávez, então presidente da Venezuela, e o governo cubano.

Quando voltou para casa prestou exame para a faculdade de medicina. Completou seis anos de curso mais três de residência em medicina geral, há cinco anos. Em retribuição ao investimento do Estado em sua formação precisou fazer novo estágio. Escolheu o programa Mais Médicos, no Brasil. Foi alocado para o município de Prainha, às margens do rio Amazonas, a 555 quilômetros de Belém.

Quando se apresentou na prefeitura soube que havia sido designado para a comunidade Pacoval, a oito horas de barco.

Em Pacoval recebeu uma casa despojada: quarto, sala, cozinha e banheiro; tudo pequeno, nenhum móvel. Com o salário de R$ 3.800, comprou fogão, geladeira, cama, colchão, mesa e duas cadeiras de plástico para sentar e pendurar as roupas.

A comunidade dependia dele e de uma enfermeira para todos os problemas de saúde: gravidez, partos, pediatria, hipertensão arterial, diabetes, doenças cardiovasculares, picadas de cobra, escorpião e arraia, peixe traiçoeiro que lacera o pé dos incautos nas praias de rio.

Estava à disposição as 24 horas do dia. As chamadas eram tão frequentes que ao ir para a cama perguntava a si mesmo: “Quantas horas me deixarão dormir esta noite”. Até cirurgias foi obrigado a realizar, embora os médicos do programa não fossem autorizados: “Fazer o quê, deixar a pessoa morrer num parto ou de apendicite à espera de uma ambulância que podia não chegar?”.

Era venerado pelos habitantes de Pacoval, comunidade que nunca tivera médico. Um dia fez o parto de uma de uma paciente que morava em outra cidade. A acompanhante era uma sobrinha que vivia com ela e o marido, ambos pastores evangélicos. José notou o interesse da moça, mas não se aproximou porque ela parecia menor de idade. Só quando soube que já completara 21 anos, tomou coragem.

Encontravam-se todos os fins de semana, embora vivessem em cidades diferentes. Uma noite ela telefonou: estava grávida. Ele respondeu: “Avisa seus tios que no fim de semana vou conversar com eles. Não sou homem de fugir das responsabilidades”.

A reação do casal de pastores não foi amigável: “Disseram que todos os cubanos eram bruxos e macumbeiros. Não me ofereceram um copo d’água”. Viam-se às escondidas. Ele estava apaixonado: “Pensava nela e na criança o tempo todo.”

Quando a namorada avisou que entrara em trabalho de parto, ele solicitou uma semana de licença-paternidade e viajou no mesmo dia. Procurou a maternidade da cidade, mas os pastores tinham deixado uma atendente na recepção encarregada de dizer que a sobrinha não estava internada, caso ele aparecesse. José andou a cidade inteira à procura em todas as unidades de saúde.

Quatro meses depois, ela fugiu da casa dos tios com a criança. A vida mudou: “Aluguei uma casa maior, comprei móveis, eletrodomésticos, louça e tudo o que uma mulher e um bebê precisam para viver bem”.

Em novembro de 2019 o governo de Cuba enviou uma mensagem avisando que o Mais Médicos tinha sido encerrado, por divergências com o governo brasileiro. Quem não retornasse seria considerado desertor.

Ele decidiu ficar, como abandonaria mulher e filha sem saber se voltaria a vê-las?

Mudaram para Santarém, às margens do Tapajós. Sem autorização para exercer medicina, trabalhou como caixa de uma discoteca que fechou depois de três meses. Foi estivador no porto da cidade, vigia de uma serraria e carregador numa loja de material de construção para ganhar R$ 40 por dia. Trabalho bruto que o obrigava a sair de casa às cinco da manhã, para voltar às dez da noite, de segunda a sábado. Via a filha apenas aos domingos.

Em agosto de 2020, foi salvo pela pandemia que obrigou o governo do Pará a contratar os cubanos que permaneceram no país. Atendia de 80 a cem pacientes todos os dias, mas recebia um salário decente, pela primeira vez.

Acompanhei José nas visitas médicas que realiza no barco Abaré que leva atendimento médico às populações ribeirinhas do Tapajós. Quando chega nas comunidades todos o tratam com o respeito e a admiração que ele merece.

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