MELHOR MORTO – ROBERTO POMPEU DE TOLEDO – REVISTA VEJA

Política

Adriano da Nóbrega, o homem que poderia contribuir para desvendar os mistérios do assassinato de Marielle Franco, virou, ele próprio, um mistério

O ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, suspeito de integrar uma milícia no Rio de Janeiro Foto/Reprodução

O homem que poderia contribuir para desvendar os mistérios do assassinato de Marielle Franco virou, ele próprio, um mistério. Adriano da Nóbrega, o supermiliciano carioca que era procurado havia um ano, tido como chefão da pioneira gangue do Rio das Pedras, e CEO da organização conhecida como Escritório do Crime, morreu sem dar um pio, tão logo encontrado no interior da Bahia pela polícia local. Ninguém garante que ele contaria o que sabe, inclusive sobre suas estreitas relações com a família Bolsonaro. Pelo sim, pelo não, eis um personagem que, para sossego de muita gente, seria preferível ver despachado para prestar conta de seus pecados no Juízo Final a ver tentado a uma delação cá em nosso planeta. Com sua morte, em vez de uma resposta, fica-se com duas perguntas, uma velha e uma nova: “Quem mandou matar Marielle?” e “Quem mandou matar Adriano?”.

O miliciano escondia-se numa casa de campo em Esplanada, a 168 quilômetros de Salvador. Segundo o professor da UFRJ e pesquisador das milícias José Cláudio Souza Alves, ouvido pela repórter Fernanda Mena, da Folha de S.Paulo, tratava-se, para a polícia, de um “quadro simplificado”: apenas o cerco de uma casa, num entorno descampado. Setenta policiais do Bope baiano participaram da operação. Mesmo que de posse de um fuzil e uma pistola, como alegado, e mesmo que tenha atirado primeiro, como também alegado, que poderia fazer o fugitivo? “Uma operação de cerco lida mais com paciência, espera, controle e dissuasão do que com confronto direto”, diz o professor. O problema é que não se tratou de uma operação de cerco, mas de execução (como mostra a reportagem desta edição).

A polícia baiana promete investigar o episódio, mas a experiência sugere como mais provável que, tal qual a de PC Farias, o tesoureiro de Fernando Collor, a de Celso Daniel, o prefeito petista de Santo André, e a de Marielle, a ocorrência do último fim de semana acabe no rol dos casos inconclusos da crônica político-policial brasileira. Os assassinatos mencionados têm em comum o fato de ter rondado as figuras de presidentes. Adriano da Nóbrega era o ponto de encontro entre duas sendas — uma levava ao assassinato de Marielle, a outra às relações perigosas da família Bolsonaro. Era parceiro de Ronnie Lessa, o matador de Marielle, no Escritório do Crime, e foi parceiro de Fabrício Queiroz, o faz-tudo dos Bolsonaro, em estripulias iniciadas quando ambos serviam na Polícia Militar.

Adriano é o elo entre duas sendas, uma levando a Marielle, a outra aos Bolsonaro

Não se deduz daí alguma ingerência dos Bolsonaro no caso Marielle, até porque não se vislumbra a vantagem que poderiam tirar disso. O que se evidencia é a proximidade entre as duas sendas, interpenetrando-se e misturando-se uma à outra, e constituindo-se, somadas, num ambiente comum entre uns e outros. Por duas vezes, Flávio Bolsonaro, o filho Zero Um, homenageou Adriano na Assembleia Legislativa, e uma vez o então deputado Jair Bolsonaro fez o mesmo na Câmara Federal. Suas defesas alegam que isso ocorreu anos atrás, quando Adriano era ficha-limpa. O argumento se enfraquece ao se saber que Flávio abrigou em seu gabinete, até o fim de 2018, a mãe e a ex-mulher do miliciano, ambas alegres folionas no carnaval de rachadinhas ali em cartaz.Publicidade

Já tivemos presidentes próximos a criminosos de colarinho branco, ou eles próprios acusados de crimes do gênero. A vizinhança com o bas-fond da criminalidade é uma singularidade do atual ocupante do cargo. Somem-se a tais relações as defesas da tortura e do assassinato e temos um presidente amigo da “tigrada”, para usar um conceito atribuído pelo jornalista Elio Gaspari, em seu livro A Ditadura Envergonhada, ao ex-ministro Delfim Netto. A “tigrada” era o pessoal dos porões, no tempo da ditadura, a turma que punha a mão na massa quando a questão era sequestrar, torturar e matar. Bolsonaro nunca cita o general Golbery, muito menos o general Geisel (que o considerava “um mau soldado”), ao falar de sua admiração pela ditadura. O culto é ao coronel Brilhante Ustra, chefe do centro de tortura montado no DOI-Codi de São Paulo. O lado da ditadura que mais cala ao seu coração é o de baixo.

A morte de Adriano da Nóbrega foi recepcionada com constrangedor silêncio pelos Bolsonaro, por três dias. Na quarta-feira 12, Flávio emitiu uma nota alarmada contra a planejada cremação do corpo, o que faria “sumir com as evidências de que foi brutalmente assassinado”. É bom tê-lo desse lado. Tomara que persista nele, não apenas para comprovar a execução, mas na busca de quem esteve por trás da trama que a tornou possível.

Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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