MORO LEMBRA TER A CHAVE DO ARQUIVO DE MARIELLE – IGOR GIELOW – FOLHA

Candidato, Moro lembra que tem a chave do arquivo de Marielle

Ministro fala quase casualmente sobre apuração de caso sensível para o clã Bolsonaro

Em um dado momento de sua entrevista ao programa “Roda Viva”, na segunda (20), o ministro Sergio Moro falou acerca da investigação do caso Marielle Franco.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, durante entrevista no Roda Viva, em 20.jan.20
O ministro da Justiça, Sergio Moro, durante entrevista ao programa Roda Viva (TV Cultura) – Reprodução

Lembrou que, em iniciativa da então procuradora-geral Raquel Dodge e do então ministro Raul Jungmann (Segurança), foi feita uma apuração sobre os procedimentos da Polícia Civil do Rio durante a investigação do assassinato da então vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes.

Moro comentava o pedido de federalização do caso de 2018, que ele deixou de endossar, já que o inquérito sigiloso basicamente desarmou uma farsa que visava salvar a pele dos verdadeiros mandantes e autores da barbaridade. Assim, retirá-lo do Rio seria uma forma de preservar a busca pelos culpados, no entendimento da época.

Moro então disse que o grosso dessa apuração “por fora” da Polícia Federal aconteceu já sob o governo Jair Bolsonaro, ou seja, já com ele como superior do órgão. “En passant”, lembrou a quem interessar possa que quaisquer achados já são de seu conhecimento —e são dezenas de quebras de sigilo no pacote.

O problema político para o poder federal, como se sabe, é a possibilidade de uma conexão entre grupos milicianos envolvidos na morte de Marielle e o clã Bolsonaro, com foco prioritário no filho 01, o senador Flávio, mas não só.

Indícios dessas ligações abundam, o que não significa conexão objetiva, mas manipulações também já foram tentadas. Político como poucas vezes se viu em público, Moro ressaltou que o próprio Bolsonaro foi vítima de um depoimento que o implicou diretamente no caso, mas depois foi desmentido.

O dilema pontual para Moro era claro. Se insistisse pela federalização, seria acusado de tentar acobertar algo em nome do chefe. Agora, será visto nas hostes bolsonaristas como alguém que facilitou a vida de um adversário, o governador Wilson Witzel (PSC), com acesso a informações sobre o desenrolar de um caso potencialmente ruinoso para a primeira-família.

Mas os dados da apuração exclusiva da PF são de conhecimento, em algum grau ao menos, de poucos na corporação, na Procuradoria-Geral da República, no Superior Tribunal de Justiça e em instâncias de investigação no Rio.

E de Moro, que tudo sabe. Naturalmente, isso não significa que ele fará ou não algo com isso. Mas conhecimento é poder, não menos para calcular trajetórias. Popular, ele é candidatíssimo como alternativa para o eleitorado conservador que talvez rejeite as bizarrices do presidente em 2022 —ou que se horrorize com eventuais revelações, digamos, escandalosas.

Se o impacto do absurdo episódio de “channeling” nazista de Roberto Alvim irá configurar um divisor de águas no comportamento do governo Bolsonaro, isso é incerto —apostaria que não, já que atavismo é atavismo.

Mas é inescapável constatar que, neste primeiro momento, a ficha caiu. Paulo Guedes disse que foi a Davos decidido a convencer investidores gringos que “o Brasil tem uma democracia estável, pujante e que funciona”.

Qualquer coisa em contrário, disse ele à Folha, são “ecos provocados pelos próprios brasileiros que se opõem ao governo”, que “deram uma ideia errônea aos investidores sobre o que tem acontecido”.

Buscou então qualificar a demissão de Alvim como uma prova da funcionalidade do governo —ignorando, claro, como aquela pessoa foi parar no cargo de secretário de Cultura. Então tá.

Igor Gielow

Repórter especial, foi diretor da Sucursal de Brasília da Folha. É autor de “Ariana”.

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