MORTE E RESSURREIÇÃO – REINALDO JOSÉ LOPES, FOLHA

Morte e ressurreição
Com ciência, criatividade e compaixão, ainda é possível ressuscitar o Brasil


SÃO CARLOS (SP)
Escrevo esta coluna, que será publicada num domingo de Páscoa, durante a Sexta-Feira Santa.Diante do peso avassalador do sofrimento trazido pela Covid-19 a tantas famílias no Brasil e no mundo, ficam rodando naminha cabeça as palavras que João Paulo 2º (1920-2005) pronunciou num de seus sermões mais famosos —a homilia que, diz a lenda, teria selado sua eleição como papa quando ele ainda era só um prelado relativamente obscuro num país debaixo da Cortina de Ferro.

“A Terra se tornou um cemitério”, dizia ele, “com tantos túmulos quanto existem homens. Um vasto planeta de tumbas”. Vivemos no Planeta-Cemitério e, pior, no País-Cemitério. Haverá ressurreição para nós?

O primeiro passo para que haja um fiapo de esperança de um “sim” como resposta é reconhecer que, coletivamente, grande parte do Brasil, a começar por muitos dos seus cidadãos mais ricos e poderosos, escolheu a “cultura da morte” condenada com tanta veemência por João Paulo 2º. E escolheu ainda a “cultura da mentira”. A mais cruel das ironias é que o sujeito que não para de repetir “a verdade vos libertará” é incapaz de reconhecer um fato verdadeiro que vá contra a sua ideologia carniceira.

O projeto que boa parte do país engoliu, por conveniência, autoengano ou ignorância suicida, sempre foi um projeto de morte e mentira. Derrotá-lo e construir algo novo em cima da terra arrasada que ele deixará para trás inevitavelmente passa pela capacidade de perscrutar e reconhecer a majestade dos fatos, o granito nos alicerces da realidade, e erigir uma outra casa para todos em cima dessa rocha.

No lugar de um país de grileiros, madeireiros e latifundiários, sedentos por transformar em pasto a maior catedral verde já erigida por bilhões de anos de evolução, sonho com a possibilidade de fazer do conhecimento a respeito da Amazônia, e não da destruição dela, a raiz de novas indústrias, medicamentos inovadores e energias renováveis. A estratégia de nuvem de gafanhotos que o Brasil adotou até aqui pode produzir reis da soja e da picanha no curto prazo, mas seus frutos mais duradouros serão desertos—inclusive no Sudeste, já que tudo está conectado—, se não mudarmos de rumo logo.

Sonho com a chance de usar esse tipo de conhecimento para que sejamos inventores de vacinas, e não seus importadores desesperados e imprevidentes. Para que as armas definitivas contra dengue, zika e chikungunya sejam criadas aqui e beneficiem o mundo todo.

Gente qualificada para fazer com que esses sonhos se transformem em realidade não nos faltam. Antes dos últimos anos de catástrofe econômica e social, formamos as melhores gerações de cientistas brasileiros de todos os tempos —pessoas que, é bom lembrar, estão sendo empurradas para fora do país por um sistema de investimento em pesquisa sucateado e por incentivos econômicos perversos, que nos mantêm presos à maldição de pilhar recursos naturais e exportá-los a preço de banana. Mas é claro que não surpreende o desprezo diante do nosso melhor capital humano num país que despreza meras vidas humanas, quaisquer que sejam.

Sonho, por fim, com o óbvio que parece impossível: uma comunidade política que tome decisões sobre que caminhos seguir com base em evidências factuais e compaixão humana básica, juntas, e não divorciadas. Não há outro caminho. Talvez seja pedir demais, num país tão desumano quanto o nosso. Mas, nem que seja só por hoje, olhar para o sepulcro vazio me dá alguma esperança.

MORTE E RESSURREIÇÃO – REINALDO JOSÉ LOPES, FOLHA
Rolar para o topo