MOTINS POLÍTICOS – LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO, FOLHA

Motins políticos
Bolsonaro segue o descompasso ético, estético e criminoso de Trump

A falta de policiamento no Capitólio, construído com trabalho escravo, é indício de motim político.
Se fosse manifestação Black Lives Matter, o prédio estaria protegido pela Guarda Nacional.

Os brancos amotinados de Donald Trump transitavam com bandeiras confederadas e grande quantidade de simbologia tóxica —nazismo, racismo, separatismo. Entraram no Capitólio pelas portas da frente e pelas janelas, ocupando o lugar e zombando da democracia.

Não há justificativa moral para a insurreição de 6 de janeiro. Sem sinal de fraude na vitória de Joe Biden, o Senado e a Câmara dos Representantes se preparavam para a singela formalidade (importante no tempo das diligências, quando as notícias eram entregues em mãos) de homologar a escolha do presidente.

Quando propaga notícias falsas, quando incita seus apoiadores a marcharem contra o Legislativo, quando se omite diante da movimentação agressiva daquela gentalha, Donald Trump está informado da fragilidade policial do Capitólio. A Casa Branca sabe o que acontece em Washington, particularmente nos prédios onde autoridades circulam. O governante é informado pelos serviços de inteligência.

Conspirar contra o Congresso é crime político. Usar informações estratégicas para criar embaraços para a transição governamental é muito grave. Trump merece terminar os seus dias vestindo uniforme cor de laranja em uma penitenciária federal.

Para o Brasil, o futuro não é auspicioso.

Bolsonaro segue as pegadas criminosas e o descompasso ético e estético de Trump: ou ele se reelege, por estreita margem de votos e renovada empolgação empresarial, ou se declara vítima de fraude nas urnas eletrônicas.

O roteiro está escrito. O presidente tem dito que foi roubada a sua vitória no primeiro turno de 2018. Sustenta (sem provas) que o eleitor apertava o 17 e o voto ia para o 13. O argumento é simplório demais, mas Jair Bolsonaro já planta, sorrateiramente, os fundamentos do discurso sedicioso de 2022.

O presidente mobiliza a simpatia de milhões de agentes de segurança, na ativa ou fora dela, e de seus familiares.

Forças civis e militares (federais, estaduais e municipais), assim como o exército de bombeiros e vigilantes particulares, incumbidos de vigiar e manter a ordem em determinados espaços, um mercado em franca expansão, gostam (e muito) de Bolsonaro: sem vergonhas políticas, ele defende a impunidade dos abusos policiais, faz publicidade do autoritarismo, com a apologia do regime militar, do AI-5, da tortura, e facilita a circulação de armas.

O chamamento à desordem chega aos milicianos das cidades brasileiras e aos “homens de bem” que ameaçam o meio ambiente e os povos indígenas, grilam terras, garimpam o solo e queimam florestas.

O presidente cultiva ainda o apoio das igrejas, distribuindo para bispos, pastores e fiéis benesses tributárias, visibilidade teológica e, claro, dinheiro público.

O motim político convulsiona o país. A legião bolsonarista, formada por milicianos e policiais, soldados e religiosos fanáticos, vigilantes e motoristas de caminhão, invade os salões do Congresso e do Supremo Tribunal Federal para contestar a derrota do presidente. É gente que sabe intimidar e atirar.

Os inimigos da democracia se espalham. Estão nas ruas, nas praias, nos condomínios, nas repartições. Parece distopia de seriado de TV.

Resta saber como tudo termina, com Jair Bolsonaro no Planalto ou na Papuda.

lfcarvalhofilho@uol.com.br

Luís Francisco Carvalho Filho
Advogado criminal, presidiu a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (2001-2004).

MOTINS POLÍTICOS – LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO, FOLHA
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