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Bolsonaro pode viver, em plena campanha eleitoral, a ‘ressaca’ do auxílio

O presidente Jair Bolsonaro viveu nos dois últimos meses uma espécie de “primavera” antecipada num ano para lá de tumultuado – em grande parte, graças a ele próprio, como gosto sempre de frisar.

O pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 (com exceções que faziam com que pudesse chegar ao dobro) ao longo de cinco meses foi um antídoto à queda de popularidade recorde que ele experimentara graças à pandemia e aos descalabros que cometeu em seu curso. Como a economia é, sempre, o vetor principal para que a população avalie o governante, antes e agora, aqui e alhures, Bolsonaro colheu os frutos de um dinheiro direto na mão de quem mais precisava, que evitou um colapso econômico e social ainda maior do que poderia ter sido ocasionado pela pandemia.

Medida correta, inevitável e, é sempre bom lembrar, fruto em grande parte da decisão do Congresso de contrariar o valor de R$ 200 inicialmente proposto pelo governo. Houve um “leilão” com ganho para os mais desassistidos no qual os parlamentares propuseram R$ 500 e Paulo Guedes arrematou com R$ 600.

Mas sempre se soube que o benefício era temporário e que, principalmente, o valor, polpudo em comparação com os outros benefícios sociais perenes, como o Bolsa Família, que atinge 13,9 milhões de pessoas com valores que variam pela composição familiar, mas não passam de R$ 205, era impraticável no médio prazo.

O dia chegou. O novo valor do auxílio, de R$ 300, começa a ser pago nesta semana. Pesquisa do instituto Ideia Big Data para a revista Exame mostrou que 53% da população ficou descontente com o novo valor. A despeito de grande parte dos entrevistados saber que o benefício era temporário, como seu nome já diz, haverá efeitos muito concretos na vida das pessoas.

Dados da Pnad covid, do IBGE, mostram que até julho 30 milhões de lares, ou 44% do total do Brasil, receberam alguma parcela do auxílio. É uma enormidade, representa em muitas cidades um motor importante da economia e, para muitas famílias, a fonte única de renda.

A redução da renda direta em circulação coincide com um momento de pico da inflação de alimentos. Não é outra a razão da insistência de Bolsonaro nos preços dos supermercados: ele sabe que a combinação de pessoas com menos dinheiro e comida mais cara pode rapidamente corroer a popularidade.

Além disso, o fim do amortecedor dos efeitos da pandemia vai deixar mais claro o estrago que foi feito na economia pelo coronavírus. Daí por que o presidente e seus aliados tenham voltado a martelar todo dia que a culpa pela queda do PIB e do desemprego é dos governadores, ou dos que pregaram o isolamento social e o fechamento dos estabelecimentos como medida de proteção a vidas e para evitar o colapso do sistema de saúde.

Trata-se, como sempre, de narrativa além de falsa criminosa, ilustrativa da completa incapacidade de Bolsonaro de governar numa crise (ou em qualquer situação). Mas, como sempre, essa irresponsabilidade encontra eco nos ouvidos de setores de uma sociedade traumatizada por meses de restrições em todos os campos da vida.

As pesquisas mostram um esgotamento do combustível do auxílio na popularidade do presidente. As curvas de quem o considera ótimo e bom e ruim e péssimo convergiram e hoje estão praticamente empatadas, em patamares que vão de 35% a 40%, a depender do instituto.

Com o auxílio reduzido à metade, haverá forçosamente um novo movimento dessas curvas. Como Bolsonaro é pautado exclusivamente por popularidade, vem aí uma estação de decisões atabalhoadas, atropelando a Economia, a Saúde e qualquer área da administração que ele veja como empecilho. No calendário bolsonarista, depois da primavera pode vir o outono.

*EDITORA DO BR POLÍTICO E APRESENTADORA DO PROGRAMA RODA VIVA, DA TV CULTURA

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