Não acreditem em Bolsonaro – JULIANNA SOFIA, FOLHA

Teto de gastos não sera óbice a seus planos de reeleição

Não acreditem em Jair Bolsonaro. Nas 72 horas que sucederam a revoada do ninho liberal de Paulo Guedes (Economia), o presidente fez, por duas vezes, juras de amor ao teto de gastos —regra que limita o aumento das despesas públicas. Entre uma e outra declarações, deu uma fraquejada: “A ideia de furar o teto existe, o pessoal debate, qual o problema?”.

Empunhar a bandeira do liberalismo, do Estado mínimo, das privatizações e da austeridade fiscal sempre foi ato mimetizante de Bolsonaro frente a Guedes para seduzir os donos do PIB. Nunca convenceu, quanto mais agora, que começa a colher os frutos da popularidade depois de R$ 500 bilhões despejados em ações contra a nefasta pandemia. Não há de ser o teto o óbice a seus planos de reeleição, por certo.1 6

Agenda liberal de Guedes em xeque

Integração do Brasil no mercado internacional não avançou de forma acelerada. Conforme as próprias palavras de Guedes, a abertura será gradual. O Brasil fechou acordo comercial com a União Europeia, mas países do bloco mostram resistência em ratificar a decisão
Embora o Congresso discuta a reforma tributária há mais de um ano, o governo entrou oficialmente no debate apenas no mês passado, ao apresentar proposta que se limita a unificar PIS e Cofins. O restante do plano ainda não foi apresentado.

Não acreditem em Paulo Guedes. O ministro anuncia a debandada de auxiliares e a investida de colegas fura-teto como forma de pressionar o Palácio do Planalto a renovar os votos pela responsabilidade fiscal e evitar a “zona sombria” do impeachment. Ora, o mesmo Paulo Guedes tentou, em vão, recente operação Mandrake para destinar recursos do Fundeb para o Renda Brasil (novo Bolsa Família) e, assim, burlar o teto.

O mesmo Guedes trabalha para abrir um crédito extraordinário de R$ 5 bilhões para financiar obras de infraestrutura e adoçar a boca dos fura-teto. A manobra livra o governo das amarras impostas pelo limite de gastos. Um pecadilho contábil.

Nem revoada, nem teto mal-escorado, nem reforma do Estado adiada abalam a fé na gestão bolsonarista nutrida pelo mercado, que entoa um “me engana, que eu gosto” e segue a operar lucros. Com tibieza, empresários reagem, e o baile continua.

O eleitorado, remediado pelo auxílio emergencial e pelo crédito barato bancado pela viúva, nada vê: seja escândalo das rachadinhas, seja 100 mil mortes, seja enlace ao caciquismo político. Garante a Bolsonaro avanço expressivo em sua aprovação, segundo o Datafolha. Ao melhor estilo “perdoa-me por me traíres”

.Julianna Sofia

Jornalista, secretária de Redação da Sucursal de Brasília.

Embora tenha se desfeito de participações do governo em empresas privadas, a gestão Bolsonaro não conseguiu fazer a agenda de privatizações andar e a venda de estatais está travada. Nem mesmo a perda de controle da Eletrobras, em negociação desde o último governo, saiu do papel
Citada por Guedes como prioridade, a reforma administrativa foi engavetada com o aval de Bolsonaro. A medida estudada prevê o fim da estabilidade no cargo, redução de salários de entrada, diminuição do número de carreiras e avaliação de desempenho
Governo quer reduzir a tributação sobre a contratação de mão de obra e cortar encargos trabalhistas fora do Orçamento, como FGTS e contribuição ao sistema S. Outra frente atua na flexibilização de normas trabalhistas e também em uma reforma sindical. A maior parte do plano ainda não saiu do papel
Não acreditem em Bolsonaro – JULIANNA SOFIA, FOLHA
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