Não há paixão mais letal do que a que sentimos pela nossa virtude – JOÃO PEREIRA COUTINHO, FOLHA


É a mensagem de ‘1984’: a tirania sobre o mundo começa sempre pela guerra à linguagem

  1. Soube através desta Folha que o ônibus não está mais lá. Falo do ônibus que fez sucesso no filme “Na Natureza Selvagem”, uma obra-prima inesperada dirigida por Sean Penn. O ano era 2007 e foi uma das melhores introduções ao pensamento utópico que tive na vida.

Então encontramos Chris McCandless (um notável Emile Hirsch) que está cansado da civilização. Tudo é uma mentira aos seus olhos: os pais, a escola, os amigos. O capitalismo. O mundo.

Ele, que procura uma forma laica de santidade, decide partir, abandonar o carro algures. E avançar para o Alasca, onde encontrará a solidão mais radical.

O ônibus aparece nas sequências finais, quando Chris passa a habitá-lo, a dormir nele, a comer, a ler.

Mas o corpo, macilento e frágil, começa a não suportar os rigores do estado da natureza. Nem o corpo nem a alma, sobretudo quando Chris, lendo Tosltói, encontra a frase mais luminosa e mais terrível: “A felicidade só é real quando é partilhada”.

Confrontado com esse pensamento, o rosto de Chris é consumido por um esgar de dor —física e metafísica. Na sua busca de uma pureza imaginária, ele acreditou na sua autossuficiência narcísica e foi sempre cego à presença e à generosidade dos outros. Mas agora é tarde, não há retorno.

Depois do filme, o ônibus converteu-se em atração turística e vários imitadores de Chris procuraram alcançar esse nirvana no Alasca. Alguns morreram.

De duas, uma: ou não entenderam a mensagem do filme e o seu terrível final; ou entenderam, mas o apelo do martírio falou mais alto. Não há paixão mais funesta do que a paixão que sentimos pela nossa própria virtude.

Que o digam os novos zelotes do momento, que pretendem submeter a história, a arte, o pensamento e todas as opiniões heterodoxas ao julgamento inquisitorial do presente.

Tal como Chris McCandless, eles são imunes à ambiguidade, à complexidade ou à compaixão. Querem começar do zero, transformando o presente no Alasca.

Nesse sentido, o filósofo John Gray tem razão quando, recentemente, em artigo para o site UnHerd, desautorizou qualquer comparação entre a violência dos “wokes” e a violência clássica dos bolcheviques.

Para Lênin, a violência era só um meio para atingir um fim —a famosa sociedade sem classes da teologia marxista.

Para os “wokes”, a violência é um fim em si —um momento terapêutico, ou catártico, que tem como objetivo libertar o mundo do pecado.

Se existe uma comparação válida, acrescenta Gray, é entre os “wokes” e os milenaristas medievais, que aterrorizaram a Europa com o mesmo tipo de infalibilidade moral.

A grande diferença é que os milenaristas congregavam os pobres e ofendidos que habitavam a miséria rural ou o “bas-fond” das cidades da Baixa Idade Média.

Os milenaristas de hoje provêm da burguesia urbana, letrada e afluente. Exatamente como o personagem do filme, Chris McCandless, para quem o privilégio e o conforto eram as marcas do demônio.

  1. Leio na imprensa que Minnesota removeu das suas escolas “O Sol É para Todos”, de Harper Lee, e “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain. Pelas razões conhecidas: existem expressões racistas nessas obras de ficção —e quanto mais depressa elas forem expurgadas do espaço público, mais depressa o racismo propriamente dito acabará por desaparecer.

A lógica é totalmente orwelliana, porque essa é a mensagem de “1984”, um romance que, sintomaticamente, virou best-seller no mundo inteiro, Brasil incluso: a tirania sobre o mundo começa sempre pela guerra à linguagem. Controlando certas palavras e abolindo outras, será possível refundar a natureza humana.

Como afirma um dos personagens mais sinistros de “1984”, o inesquecível Syme, o assalto à linguagem tem como objetivo “restringir o campo do pensamento”. E acrescenta, deliciado: “Ano após ano, [haverá] cada vez menos palavras, e o alcance da consciência [será] cada vez mais limitado”.

Sem termos acesso à linguagem do passado, viveremos literalmente na inconsciência. Até acordarmos um dia e, como o personagem Winston, sentirmos apenas a memória difusa e ancestral de que houve um tempo de liberdade em que as coisas eram diferentes.

João Pereira Coutinho

Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.





Não há paixão mais letal do que a que sentimos pela nossa virtude – JOÃO PEREIRA COUTINHO, FOLHA
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