Ninguém pode obrigar ninguém – FLAVIA BOGGIO, FOLHA

Ninguém pode obrigar ninguém
A população se negava a usar máscaras e continuava a lotar praias

Mesopotâmia, 2990 a.C. Decepcionado com a humanidade, Deus decidiu destruir toda a vida na Terra.

Ele encontrou Noé, um bom senhor, e lhe deu uma missão: “Constrói uma arca de madeira e leva contigo teus filhos, tua mulher e dois animais de cada espécie”. Noé olhou para o céu e gritou: “Ninguém pode obrigar ninguém a construir uma arca”. Deus mandou o dilúvio e foi o fim das espécies.


Troia, 1200 a.C. Após dez anos tentando ultrapassar os muros de Troia, Ulisses teve uma ideia: construir um cavalo de madeira e, dentro dele, esconder o seu exército. Cansado de ficar esmagado dentro do cavalo, Heitor, um soldado de bem, se rebelou: “Ninguém pode obrigar ninguém a ficar dentro de cavalo”. O soldado abriu a porta do cavalo e foi o fim da expressão “presente de grego”.

Galileia, 30 d.C. Jesus encontrou dois irmãos pescadores, Simão e André, e pregou: “Sigam-me e eu os farei pescadores de homens”. Simão olhou para André e comentou: “Ninguém pode obrigar ninguém a seguir qualquer maluco que aparece na praia”. Eles chamaram os soldados romanos para prender o cabeludo e foi o fim do sonho do novo Messias.

Viena, 1847. Doutor Ignaz Semmelweis percebeu que grávidas morriam mais quando o parto era realizado por médicos, não por parteiras. Ele descobriu que os médicos tinham nas mãos partículas cadavéricas e ordenou que todos lavassem as mãos antes dos partos. Um cirurgião esbravejou: “Ninguém pode obrigar ninguém a lavar as mãos”.

Foi o fim do sanitarismo e pessoas continuaram a morrer até de unha encravada.

Reino Unido, 1940. Os bombardeios alemães em solo inglês se tornaram cada vez mais frequentes. Para confundir os pilotos da Luftwaffe, o general sir Frederick Pile ordenou que os britânicos apagassem a luz durante a noite. Mas um cidadão de bem comentou: “Ninguém pode obrigar ninguém a passar a noite no escuro”. Os nazistas localizaram os alvos e foi o fim do mundo ocidental como conhecemos hoje.

Brasil, 2020. Durante a pandemia do novo coronavírus, o Brasil liderava o ranking de mortes. A população se negava a usar máscaras e continuava a lotar praias. Só uma vacina salvaria. O presidente Jair Bolsonaro comentou: “Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”. E ao olhar a cena, Deus pensou: “Desisto desses arrombados”.

Flávia Boggio
Roteirista e autora do núcleo de humor da Globo

Ninguém pode obrigar ninguém – FLAVIA BOGGIO, FOLHA
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