Nosso maior trauma – JOÃO GABRIEL DE LIMA, ESTADO

O trauma da ditadura voltou a assombrar o Brasil em manifestações antidemocráticas

Países, como indivíduos, têm traumas. Fantasmas do passado ajudam a determinar escolhas do presente.

A sociedade brasileira, em tempos recentes, fez três escolhas claras: democracia, responsabilidade fiscal e inclusão social. Elas nasceram de três traumas. Por duas vezes, no século 20, enfrentamos ditaduras que mataram, torturaram e censuraram. Flertamos com a hiperinflação na virada para os anos 1990. E a exclusão social – sempre presente, sempre gritante — é tema do debate público desde que Eugênio Gudin e Roberto Simonsen iniciaram a querela entre liberais e desenvolvimentistas nos anos 1950. Os dois lados concordavam que o combate à “pauperização” – termo usado na época — deveria estar entre nossas prioridades.

Esses três traumas são discutidos num livro fundamental para entender o país: “Brazil in Transition”, de Marcus MeloCarlos PereiraLee Alston e Bernardo Muller, que ainda não tem tradução em português. Carlos e Marcus participam ativamente do debate brasileiro – no caso de Carlos, personagem do minipodcast da semana, com uma coluna aqui mesmo no Estadão. Em artigo escrito na época das manifestações de 2013, o filósofo Renato Janine Ribeiro chega a uma tríade semelhante – o que mostra consenso, em diferentes áreas da academia, sobre nossos traumas e nossas escolhas.

Discutiu-se muito nesta semana se o Supremo Tribunal Federal não foi longe demais em seus pareceres, ações e investigações contra manifestações antidemocráticas. Críticas são parte dos regimes de liberdade, o zelo ao processo legal é sempre saudável, e exageros devem ser questionados – até para não cair em arbitrariedades com sinal trocado.

Dito isso, vale um paralelo com a Alemanha, que em 2018 criou uma lei draconiana – criticada por seus exageros — para barrar o discurso de ódio nas redes sociais.

nazismo é o grande trauma da sociedade alemã. Momentos históricos nunca são inteiramente comparáveis, mas é possível afirmar que a ditadura é o nosso grande trauma de tempos recentes.

Nos últimos anos, o debate na imprensa, que espelha o debate acadêmico, girou sobre o segundo e o terceiro pilar de “Brazil in Transition”.  Como observou o editor Flávio Moura num artigo, as questões econômicas ganharam protagonismo – nunca tantos economistas tiveram colunas em jornais. Talvez por causa de nosso trauma inflacionário. Aos poucos, analistas de políticas públicas destinadas a mitigar a chaga social também ganharam espaço.

Recentemente, o primeiro pilar de “Brazil in Transition” voltou ao debate. Não é apenas o Supremo que reage ao menor endosso a aventuras ditatoriais – endosso que muitas vezes, como lembra Carlos Pereira, parte do próprio presidente da República. É a sociedade civil, através de abaixo-assinados e moções. São os intelectuais que assinam colunas em jornais. É a própria imprensa como instituição, em seus editoriais – a começar por este jornal que você lê.

Países têm traumas. O da ditadura, que parecia superado, voltou a assombrar o Brasil em manifestações antidemocráticas. Da mesma forma que o fantasma do nazismo ressurgiu na Alemanha com o discurso de ódio – principalmente contra imigrantes — nas redes sociais.

Que instituições, imprensa e sociedade civil reajam de forma veemente à simples menção das palavras malditas — “ditadura” no Brasil, “nazismo” na Alemanha – é sinal de saúde, não de distúrbio. Mostra países que reafirmam suas escolhas para o futuro, ao deitar no divã e enfrentar os traumas do passado.

Nosso maior trauma – JOÃO GABRIEL DE LIMA, ESTADO
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