NOVO CHEFE DA PF ASSUME COM CARA DE INTERVENTOR – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS NO UOL

nomeação de Rolando Alexandre de Souza para o comando da Polícia Federal provocou tédio e espanto. Foi tediosa porque Jair Bolsonaro construiu toda uma linha de zigue-zagues, bem protegida por reticências, para consumar sua intervenção na PF. Espantou porque, com o país à beira do abismo sanitário, o presidente da República continua dançando a coreografia do confronto.

Rolando trabalhava na Abin. Era subordinado de Alexandre Ramagem, o amigo da família Bolsonaro que foi impedido pelo Supremo Tribunal Federal de assumir o comando da PF. Convém prestar atenção às reticências invisíveis que acompanham o zigue-zague de Bolsonaro. O que são as reticências? Elas são usadas na linguagem escrita para marcar a interrupção de um raciocínio, a supressão de informações, a insinuação de algo que fica subentendido.

A escolha do delegado Rolando e os movimentos que levaram a ele viraram as reticências da troca de comando da PF, aqueles três pontinhos que aparecem no final das frases incompletas. O subordinado de Ramagem tomou posse numa cerimônia quase clandestina, no gabinete de Bolsonaro. Assume após um final de semana em que Sergio Moro prestou depoimento no inquérito que apura a acusação de que Bolsonaro deseja aparelhar politicamente a PF.

O que declarou Sergio Moro ao se demitir da Justiça? “O presidente me disse mais de uma vez, expressamente, que queria ter uma pessoa do contato pessoal dele que ele pudesse ligar, colher informações, colher relatórios de inteligência. (…) Não e? o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação.” O que disse Bolsonaro em sua defesa? “Sempre falei para ele: ‘Moro, não tenho informações da Polícia Federal. Eu tenho que todo dia ter um relatório do que aconteceu, em especial nas últimas vinte e quatro horas…”

Rolando, o sub-Ramagem, assume a PF sob o signo da desconfiança, com a cara dos três pontinhos que, na gramática, sinalizam as coisas incompletas. Não é que o personagem seja despreparado. A questão é saber a serviço de quem estará o preparo do delegado. Servirá aos interesses da família Bolsonaro ou do Estado? Será um chefe efetivo ou apenas o interino de um mandato tampão, escalado para esquentar a cadeira para a chegada de Ramagem?

Os primeiros movimentos do suposto diretor-geral da PF não são animadores. Ao sair da pasta da Justiça batendo a porta, Moro dissera que Bolsonaro tramava trocar, além do diretor-geral, os superintendentes da PF no Rio de Janeiro, berço das aflições dos Bolsonaro, e em Pernambuco. No seu primeiro ato, Rolando promoveu a tão ansiada mudança na PF do Rio. Derrubou o superintendente Carlos Henrique Oliveira promovendo-o a diretor-executivo. A intervenção de Bolsonaro na PF é marcada por um engenhoso zigue-zague. Mas o que importa são as reticências.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

 

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