NÚMEROS NEGAM ACHISMOS DO GOVERNO – REINALDO AZEVEDO – BLOG DO UOL

Reportagem publicada pelo Estadão põe números na irresponsabilidade do discurso de Jair Bolsonaro e de outros que, a exemplo dele, insistem na tese de que a Covid-19 é doença grave apenas para idosos e pessoas que têm doenças pré-existentes, as chamadas comorbidades. Pergunto, de toda sorte, à margem: fosse assim, deveríamos ficar tranquilos e embarcar na charanga homicida de Bolsonaro? A resposta seguiria sendo não.

Quem deve ler com atenção a reportagem é Augusto Aras, procurador-geral da República. No parecer que mandou contestando a liminar concedida por Roberto Barroso, que proibiu a veiculação da propaganda “O Brasil não pode parar”, o doutor sugeriu que o terreno das respostas científicas ao novo coronavírus é movediço. Não haveria um saber realmente firmado a respeito. A questão estaria, entende-se pelo seu texto, em aberto.

Não está. O isolamento social não é uma escolha em favor da vida e da saúde entre muitas outras que o dispensariam. Ao assinar aquela estrovenga, está apenas deixando as suas digitais no universo da infâmia. A contabilidade dos doentes e das internações desmoraliza a linguagem gelatinosa do procurador-geral.

Leiam trecho da reportagem. Volto em seguida:
Embora a mortalidade por covid-19 seja maior entre idosos, metade dos casos graves da doença no Estado de São Paulo ocorreu em pessoas com menos de 60 anos, segundo estatísticas da Secretaria Estadual da Saúde. Até o dia 8 de abril, último dado disponível, 2.355 pessoas foram hospitalizadas em hospitais paulistas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causada pelo coronavírus. Dessas, 1.193 (50,6%) não eram idosos. Os números detalhados por faixa etária mostram que 816 internados tinham entre 40 e 59 anos e 352, de 20 a 39 anos. As crianças e adolescentes, que raramente apresentam complicações, têm número baixo de internações, mas não estão completamente fora de risco. Foram 25 casos graves na população de 0 a 19 anos, incluindo duas mortes.

De acordo com especialistas, parte dos internados abaixo dos 60 anos faz parte de outros grupos de risco, como pacientes com doenças crônicas. Há, porém, um número crescente de pessoas jovens e saudáveis, sem nenhuma doença preexistente, que também desenvolvem pneumonia e outras complicações da infecção. “Eu mesmo cuidei de vários pacientes na faixa dos 40 anos, sem comorbidades, que ficaram em estado muito grave. O fato de a letalidade ser maior em pessoas com fatores de risco não deixa jovens e pessoas saudáveis isentas de desenvolverem complicações. O que difere é que, caso internados, eles têm mais chance de sobreviver porque têm uma reserva pulmonar maior para aguentar a doença”, explica José Eduardo Afonso Jr., pneumologista do Hospital Israelita Albert Einstein. Na unidade, 60,5% dos 314 pacientes que estão hospitalizados ou que já tiveram alta tinham menos de 60 anos.
(…)

RETOMO
Notaram? Nada menos de 50,6% dos pacientes, mais da metade, não eram idosos — vale dizer: tinham menos de 60 anos. Estavam na faixa entre 40 e 59 anos enormes 34,6% do total de internados em São Paulo. E a internação, como se sabe, só se dá quando o quadro é considerado grave. Mais: 14,9% dos hospitalizados tinham entre 20 e 39. Vale dizer: estamos falando de jovens.

Alguns desses doentes, é fato, tinham comorbidades, mas, como atestam os médicos, é crescente o número de pessoas saudáveis que acabam evoluindo para quadros graves.

Isso evidencia a estupidez da tese do isolamento vertical como medida protetiva única. Ainda que ações para proteger idosos e pessoas com comorbidades se façam necessárias, é claro que elas não substituem o chamado distanciamento social. É uma ação complementar, não uma alternativa.

Observem os dados acima: ainda que os idosos sejam a maioria dos mortos, as outras faixas etárias também ocupam os leitos hospitalares, inclusive os de UTI. Atuar em favor de uma contaminação em massa corresponde a, potencialmente, mandar a população inteira para o matadouro.

Mas, claro!, pouco importam os fatos para quem aproveita a tragédia que colhe o mundo e o Brasil para produzir proselitismo vagabundo. Quis destino, para nossa má sorte, que o mal tomasse o planeta quando Jair Bolsonaro ocupa o Palácio do Planalto.

Do seu exclusivo ponto de vista, poderia ser a chance de liderar um esforço nacional de combate à doença. O político medíocre poderia até ambicionar o estatuto de estadista. Mas ele está ocupado unicamente em falar para a sua grei, em atender às demandas cartoriais de meia-dúzia de “empreendedores enricados” e em vender teorias conspiratórias.

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