Nunca entendi quem não assiste a novela – ANDERSON FRANÇA, FOLHA

Comunista, Dias Gomes escreveu ‘O Berço do Herói’, que na TV virou ‘Roque Santeiro’, de onde saiu Regina Duarte

Tem um pessoal que não assiste novela. Nem telejornal. Esse pessoal vai além: não tem TV em casa. Isso aí é de uma blasfêmia, porque, veja bem, pra que a sociedade investiu anos em Bombril, tubo de imagem e carnê de eletrodomésticos? É preciso fazer justiça aqui. O Bombril existe para ser um gadget complementar e analógico da antena de TV. A TV clássica, ou vintage.

Até toca-discos tá voltando, e tem um pessoal que não compra uma TV, não resgata uma Telefunken Palcolor 1982 de 26 polegadas. A Telefunken foi minha babá. Nela eu via Daniel Azulay, Bozo, Chacrinha e Trapalhões.

E, claro, as novelas.

“Saramandaia”.

De Dias Gomes, essa novela, hoje classificada como obra de realismo fantástico, conta a história do município de Bole-Bole, no interior de Pernambuco.

A história é basicamente sobre o nome da cidade. Um grupo queria mudar o nome pra Saramandaia, e os outros queriam manter o nome de Bole-Bole. Os que queriam mudar o nome eram chamados de “mudancistas”, e os que queriam manter o nome eram os “tradicionalistas”.

Toda a trama, os personagens, as histórias laterais, giram em torno de um conflito: A mudança de um nome de uma cidade no meio do nada. Uma babaquice, pra quem não tem TV em casa.

Mas Dias Gomes está dando uma aula de Brasil, pro povo que compra uma TV em 24 prestações na Ultralar, as Casas Bahia da época.

E Dias Gomes era um escritor-problema. Toda vez que eu vejo alguém dizendo “Fora Globo” ou “Boicote à Foice de São Paulo”, eu pego um cigarro do tamanho do meu braço, cruzo as pernas e fumo duma só vez, lembrando de Dias Gomes.

A primeira coisa profissional que Dias Gomes fez foi uma peça pra teatro chamada “A Comédia dos Moralistas”. Logo de cara, ele demonstra um incômodo pessoal com a forma em que a sociedade brasileira se organiza em suas dimensões de poder e desigualdade. Na sequência, escreve “Amanhã Será Outro Dia”, uma peça totalmente antinazista, em plena Segunda Guerra Mundial. Estamos em 1941, e Procópio Ferreira, um ator importantíssimo, decide falar com Dias Gomes e desse encontro sai uma outra peça chamada “Pé de Cabra”, tão marxista, que foi proibida no dia da estreia. Bilhetes vendidos, polícia entra, vai no camarim de Procópio, uma blasfêmia. Teje preso todo mundo.

Procópio não abandonou Dias Gomes.

Tu sabe a vergonha que dá ser censurado, perseguido ou ameaçado por algo que você produziu? Dias Gomes sabia. Se sentia frustrado, com medo de não pagar suas contas, e com um peso enorme na consciência, por dizer aquilo que considerava verdade. Procópio assinou um contrato com ele, e por anos trabalharam juntos. Dias Gomes, cada vez mais putaço da vida e com o sistema, metia bala em novas peças e ideias. Virou comunista. De tanto o chamarem de comunista, acordou, escovou os dentes, pegou um bonde e foi pro centro do Rio se inscrever no PCB. Se iam chamar de comunista, pelo menos ela tinha uma carteirinha da porra do partido. Nem os comunistas evangelizaram ele, foram as pessoas que o chamavam de comunista, que o convenceram que ele era.

Esse Dias Gomes escreveu “O Pagador de Promessas”. Esse cara. Esse cara que, qualquer coisa que escrevia, era polícia batendo na porta, o povo esculachando, ligando pras redações, expondo como um badernista. Parece que, quanto mais se batia no homem, mais ele botava pra fora provocações, em forma de teatro. “O Pagador de Promessas”, do teatro pros cinemas, se tornou o primeiro filme brasileiro indicado a um fucking Oscar. E este ano temos o “Democracia em Vertigem”, ou seja, o Oscar gosta de comunistas há muito tempo.

Já na ditadura, Ustra cortando a garganta de todo mundo, Dias Gomes escreve “O Berço do Herói”. E de novo essa peça seria proibida no dia da estreia. Queimado no teatro, porque nem todo mundo tinha coragem de botar a cara que nem ele, Dias Gomes ficou, no bom português, fudidão.

Cheio de verdades na ponta da língua, bolso vazio. Foi nessa que o Boni o chamou pra Rede Globo.

E Dias Gomes, além de “Saramandaia”, escreveu “Bandeira 2”, “O Bem Amado”, “Carga Pesada” e “O Berço do Herói”, adaptado pra TV, passou a se chamar “Roque Santeiro”, de onde saiu Regina Duarte.

A vida. Essa coisa que dá voltas.

Se você pegar cada obra dessas, você vai ver o Brasil num formato simples, pra ser digerido pelas massas, numa TV. Obras feitas por um cara que não teve um minuto de paz no começo da carreira. E quando teve paz, aprendeu a esculhambar todo mundo, sem citar nomes.

Mas se você não tem TV, você não faz a menor ideia do que estou falando. Seja você um eleitor de Bolsonaro que só vê Record, seja você um Vila Madaleiner Cirander que diz que TV emburrece.

Qualquer coisa emburrece. Instagram emburrece. Twitter emburrece.

Eu olho pro Dias Gomes e penso duas coisas: Como queremos falar com o povo, se negligenciamos os canais que este povo usa? Se não falamos com evangélicos, se não disputamos os espaços da comunicação em massa, se brigamos em público —a briga triste e que não leva a nada de José de Abreu e Cynara Menezes— que esquerda é essa, que não parou tudo que estava fazendo na sexta feira a noite, no último capítulo de “Avenida Brasil”?

E ao olhar pra ele, tenho alguma esperança. Porque apanhar por se posicionar, por ter um lado, pode levar tudo: emprego, amigos, dinheiro. Mas não leva minhas convicções, minhas certezas, e minha capacidade de continuar rindo, gargalhando, dessa realidade disfuncional que querem impor. Morro, mas morro rindo de muitos de vocês.

Viva Saramandaia. Viva Dias Gomes.

 Anderson França

É escritor e roteirista; carioca do subúrbio do Rio e evangélico, é autor de “Rio em Shamas” (ed. Objetiva) e empreendedor social, fundador da Universidade da Correria, escola de afroempreendedores populares.


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