O AMOR ESTÁ NO AR – VERA IACONELLI – FOLHA

Quem nunca conheceu um casal de amantes, cuja paixão só funciona sob a condição de estarem em uma relação estável com alguém que ignora a situação triangular?

A promessa de separar do marido/esposa é sempre quebrada pela desculpa de ter filhos, da família, dos amigos, reabrindo o incansável circuito de sofrimento, intercalado por cenas de sexo tórrido. Revelado acidentalmente o jogo da infidelidade, desfeitos os casais juramentados, os amantes passam a ser o casal oficial e não demora muito para que descubram que o prazer acaba junto com o fim da clandestinidade. Como continuar a brincadeira nesses casos nos quais o verdadeiro afrodisíaco era ter alguém de fora, fazendo com que o sexo mais banal fosse alçado à glória por seu caráter proibido? Por vezes, recomeçando o circuito: traindo o atual com o ex, e assim sucessivamente, revelando que o jogo sempre fora a três —ou quatro—, ainda que inconsciente.

Roteiro de incontáveis relacionamentos, que se torna cada vez mais antiquado diante de uma geração que já não tem compromisso com monogamia compulsória e repensa os acordos afetivos.

Monogamia eletiva é uma possibilidade entre outras, assim como encontros fortuitos, que não dizem respeito a ninguém além dos interessados, ou ainda o compartilhamento com o parceiro de relações pontuais e a poligamia. O jogo afetivo e sexual tem inúmeras combinatórias e motivações, para além das descritas aqui, e convém não generalizar, pois se há uma coisa que a psicanálise revela é que cada um goza como dá e lida com as mazelas e delícias do seu desejo como pode.

Mas eis que chegou a pandemia e o que era intricado ficou mais.

Sexting, pornografia e masturbação foram alçados à categoria do que tem para hoje –evito o chatíssima “novo normal”, uma vez que “novo” e “normal” são expressões bem questionáveis.

A masturbação, que já foi tão demonizada, mostra-se tática de guerra diante das privações que o vírus impõem. Dá para escrever um tratado sobre a importância de prática tão vilipendiada. No que tange às descobertas do corpo próprio e seus encantos, ela é fundamental para que no encontro com outro tenhamos algum repertório que indique as condições do nosso prazer. Lembremos que a falta de orgasmo feminino no encontro sexual raramente se confirma na masturbação. Outra razão diz respeito à exploração das fantasias eróticas que acompanham o ato e que também fazem parte do repertório que leva ao prazer. Contraindicações: que seja feita diante de um público que não autorizou, que sirva como forma de fugir de relacionamentos afetivos ou como descarga privilegiada para todas as excitações, limitando outras produções do sujeito (impedindo assim a sublimação).

Já o sexting —o tão temido envio de mensagens de cunho erótico e sexual por celular– passa a ser umas das boas práticas impostas pelo isolamento. A pornografia, por sua vez, merece que observemos a procedência do material —há crimes ligados a muitas produções— e, principalmente ao público alvo. Não recomendado para adolescentes começando sua vida sexual pelo caráter deturpado das experiências encenadas. Há campanhas denunciando os efeitos devastadores desse imaginário em jovens inexperientes. Nenhuma prática de satisfação erótica e sexual deveria ser usada como álibi para fugir do contato presencial entre humanos mas, por v ezes, é a única opção à mão.

Por fim, resta saber se aqueles que só se excitam diante de proibições verão na quebra do isolamento a forma ideal para obter prazer.

Façam suas apostas.

Vera Iaconelli
Diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP.

O AMOR ESTÁ NO AR – VERA IACONELLI – FOLHA
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