O BARCELONA ACABOU? – JUCA KFOURI – FOLHA DE SP

Time não é mais o mesmo porque ninguém perde tanto talento impunemente

O primeiro a sair foi o genial meio-campista Xavi Hernández. Depois, saiu outro extraordinário meia, Andrés Iniesta.

Finalmente, foi embora Neymar Júnior.

Xavi se despediu do Barcelona, clube que defendeu por 17 anos, em 2015.

Iniesta, em 2018, deixou a Catalunha depois de 22 anos.

A perda de qualquer um dos dois é irreparável, e de ambos, em apenas três temporadas, uma catástrofe.

Some às duas a ida de Neymar para o PSG.

Inevitável que o Barça perdesse o espaço que ocupou no período em que a dupla de meio de campo brilhou tendo Lionel Messi como protagonista e Neymar como maravilhoso coadjuvante, ao lado de Luis Suárez.

Hoje, o Barcelona não está no nível de Liverpool ou Manchester City.

Segue sendo para o rival Real Madrid simplesmente porque os merengues também tiveram perda impagável, a de Cristiano Ronaldo.

E, por favor, não atribuam rara leitora e raro leitor o julgamento tão definitivo à eliminação na Supercopa da Espanha pelo Atlético de Madrid.

Clássico é clássico e, pelas circunstâncias do 3 a 2 em Jiddah, na Arábia Saudita, com segundo tempo eletrizante, até se poderia dizer que nada mudou.

E também porque não há sentenças definitivas quando um clube que é “més que un club” está na berlinda.

Sobrevive a constatação de que mesmo o poderoso blaugrana perde a majestade quando sofre golpes de tamanha grandeza.

Koke e Ángel Correa comemoram gol do Atlético sobre o Barcelona
Koke e Ángel Correa comemoram gol do Atlético sobre o Barcelona – Guiseppe Cacace/AFP

Que o diga o Santos pós-Pelé.

Quantas vezes, depois dele, a Placar perguntou se o Santos não tinha acabado.

“O Santos acabou?”, perguntaram diversos títulos de reportagens da revista.

Tantos quantos responderam em temporadas seguintes “não, o Santos não acabou”.

Porque depois do Rei vieram os Meninos da Vila, ou Robinho e Diego, ou Neymar e Ganso, ou, quando já nem se fazia mais a pergunta tantas vezes desmentida, veio Jorge Sampaoli, agora substituído pela cabeça iluminista de Jesualdo Ferreira.

Daí dar de barato que em breve o Barcelona também responderá estar tão vivo como sempre, o que não elimina a avaliação deste momento de queda.

Com a preciosa colaboração de Pep Guardiola, Xavi e Iniesta foram além da fronteira catalã e fundamentais para o título mundial da Espanha na Copa da África do Sul, em 2010.

No Barça, tinha ainda a cereja do bolo, chamada Neymar.

Que, por ser o único a poder voltar com a aposentadoria da dupla de gênios, parece inevitável, deve voltar.

Poucas vezes a transferência de um craque resultou em prejuízo tão grave como a do brasileiro para o PSG.

Incapaz de mudar o patamar do clube francês, mas fartamente responsável pelo declínio do espanhol.

Há, diga-se, algumas incógnitas na rota final da própria temporada europeia.

Vai que o Barcelona (ou o PSG) ganha a Champions.

O que dirão a rara leitora e o raro leitor? Que mais uma vez o crítico cometeu o pecado da pressa e comeu frio ou queimou a língua?

Paciência, são os riscos do ofício, ele dirá sem dar a mão à palmatória.

No fundo, tudo isso não passa da vontade de ver o trio MSN em ação novamente, não para conquistar mais um título no Campeonato Espanhol, perfeitamente ao alcance dos pés catalães.

Mas para fazer frente ao poderio dos times ingleses dirigidos pelo alemão Jürgen Klopp e pelo espanhol Guardiola.

Ou, para ser absolutamente franco, pelo desejo de ver o argentino novamente coadjuvado pelo uruguaio e pelo brasileiro.

Juca Kfouri

Jornalista, autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP.

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