O BIG BANG DE GUEDES VIROU AUTO IMPLOSÃO – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS

Ao comparar o pacote que não conseguiu desembrulhar à ideia do Big Bang, a suposta explosão que marca o início do tempo, o início da expansão cósmica, Paulo Guedes não imaginou que chegaria ao final da semana como protagonista de uma autoimplosão. Divergências fazem parte da rotina de qualquer governo. O que distingue a crise atual é a capacidade de Guedes de cavar o próprio infortúnio.

Guedes desejou vender a tese segundo a qual o seu pacote marcaria uma espécie de reinício do governo. Na fase pós-pandemia, a gestão Bolsonaro estaria fadada a expandir-se. E o Ministério da Economia seria o centro dessa expansão, a origem de tudo. Deu chabu.

Quando Edwin Hubble descobriu que as galáxias estavam se afastando umas das outras, em 1929, concluiu-se que o Universo estava em expansão. Daí a analogia de Guedes. A expansão é uma consequência do Big Bang. Por isso, tornou-se comum a ideia de uma espécie de explosão, com o surgimento de um ponto central a partir do qual as galáxias voaram pelo espaço como resíduos.

Em verdade, a expansão do Universo é outra coisa. Quem estica é o próprio espaço. A dilatação carrega as galáxias. Mal comparando, as galáxias se movem como se fossem garrafas boiando num rio. Elas se afastam uma das outras. Se houvesse uma explosão, existiria um centro do Universo. Mas esse ponto especial, a exemplo dos superpordes de Guedes, não existe. Todos os pontos são iguais.

Até meados da década de 1980, imaginou-se que o Big Bang marcara o início da expansão cósmica. Hoje, sabe-se que Big Bang não foi o começo de tudo. Mas Jair Bolsonaro cuidou para que a autoimplosão de Paulo Guedes ficasse marcada na crônica do seu governo como o início da expansão do encolhimento dos poderes do seu ministro da Economia.

Na campanha de 2018, Bolsonaro informou que não entendia bulhufas de economia. Esclareceu que seu governo seria abastecido pelos conhecimentos do Posto Ipiranga. Era lorota. As divergências tornaram-se frequentes. Acentuaram-se durante a pandemia.

Na fatídica reunião de 22 de abril, aquela em que os palavrões soaram mais alto do que as ideias, Paulo Guedes irritou-se com o Pró-Brasil, programa de obras que o general Braga Neto, chefe da Casa Civil, costurava com os ministros Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Tarcísio de Freitas (Infraestrutura).

Referindo-se a Marinho, um ex-deputado tucano que cultiva o plano de disputar o governo do Rio Grande do Norte, Guedes insinuou que o colega colocava o interesse particular à frente do projeto político do próprio Bolsonaro.

“Não pode ministro, pra querer ter um papel preponderante esse ano, destruir a candidatura do presidente, que vai ser reeleito se nós seguirmos o plano das reformas estruturantes originais. Então eu tenho que dar esse recado, nós vamos estar à disposição, nós vamos ajudar tudo, mas nós não podemos nos iludir. O caminho desenvolvimentista foi seguido, o Brasil quebrou por isso, o Brasil estagnou. A economia foi corrompi… A política foi corrompida, a economia estagnou através do excesso de gastos públicos.”

Desejava-se cavar no Orçamento de guerra de 2020 algo como R$ 30 bilhões para tocar obras. Guedes levou o pé à porta: “Então, achar agora que você pode se levantar pelo suspensório! Como é que um governo quebrado vai investir, vai fazer grandes investimentos públicos?”

No pedaço final de sua fala, Guedes como que condicionou o êxito do projeto reeleitoral de Bolsonaro às reformas econômicas. E insinuou que é cedo para tratar de urnas.

“Vamos fazer todo o discurso da desigualdade, vamos gastar mais, precisamos eleger o presidente”, disse o ministro no encontro de abril. “Mas o presidente tem que pensar daqui a três anos. Não é daqui a um ano não. Tem muita gente pensando na eleição desse ano. É só a observação que eu faria.”

Desde então, a sensação de que o desprestígio de Guedes é crescente faz tremer o mercado. Bolsonaro teve de fazer um par de declarações para acalmar os ânimos. Numa, declarou no final de abril que Guedes é “o homem que decide economia no Brasil.” Noutra, afirmou há duas semanas: “Nós respeitamos teto de gastos, queremos a responsabilidade fiscal.”

Agora, o presidente refuga publicamente o pacote chamado de Big Bang pelo “homem que decide economia”. E insinua que deseja colocar em pé o Renda Brasil, versão vitaminada do Bolsa Família, sem retirar verbas de outros programas sociais. “Não posso tirar de pobre para dar para paupérrimos”, afirmou.

Ficou entendido que fez papel de bobo quem acreditou nas juras de fidelidade do presidente à agenda do titular da Economia. Portou-se como tolo também quem deu crédito ao Big Bang de Paulo Guedes.

Bolsonaro deu prazo até esta sexta-feira para que Guedes lhe apresente uma solução mágica. Não basta tirar coelhos da cartola. Considerando-se a ruína das contas públicas, Paulo Guedes terá de tirar cartolas de dentro do coelho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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