O desmonte do futuro – MIRIAM LEITÃO, O GLOBO RJ

O desmonte do futuro
Por Míriam Leitão

O futuro exige de nós esperança. Mas a realidade a nega diariamente. A guerra transforma a Ucrânia em escombros e cria um ambiente de hostilidade crescente entre potências que têm o poder de destruir o planeta. Estão sendo desfeitos elos de décadas de cooperação. No Brasil, o governo Bolsonaro e suas forças bombardeiam edifícios legais que a democracia construiu em anos de debate, negociação e luta. Bolsonaro não age nesta destruição do futuro sozinho. O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), é seu fiel escudeiro.

Lira colocou para votar a urgência de um projeto hediondo, no momento em que, na frente do Congresso, manifestantes pediam tempo para debater o assunto. O projeto permite mineração, exploração de óleo, gás, hidrelétricas, plantação de transgênicos em terras indígenas. Lira disse que criou uma comissão para debater o assunto. Não é verdade. Sua comissão é para inglês ver. Ele está impedindo o debate e há outras tramas sendo urdidas, como a de acoplar esse projeto a outro que já está com a tramitação mais adiantada. Essa matéria define o futuro dos indígenas, mas também o nosso futuro como país.

Há quem considere que a voz dos artistas, dos indígenas, dos ambientalistas não deve ser considerada, porque seria tendenciosa. É um erro. Essas vozes representam muito mais a sociedade do que se imagina. Mas se você preferir olhar só para a economia, posso garantir: é um péssimo negócio a aprovação desse projeto. O Brasil será tirado da lista dos grandes fluxos de capital, dos fundos de investimento, das empresas que precisam provar para seus acionistas que fazem negócios apenas com países e empresas que respeitam o meio ambiente, exportações brasileiras serão barradas, o custo de financiamento vai subir. O Brasil vai ser aos poucos cancelado.
O governo disse que o projeto de lei precisa ser aprovado para enfrentar a escassez de fertilizantes derivada da guerra da Rússia contra a Ucrânia. É mentira. Há pouco potássio em terras indígenas e, se for encontrado, sua exploração não é possível a curto prazo. Existem quase 500 pedidos na Agência Nacional de Mineração relacionados ao potássio fora de terras indígenas, há outras soluções mapeadas nas universidades e institutos públicos para aumentar a oferta de fertilizantes no Brasil ou reduzir seu uso abusivo. Bolsonaro, Lira, seus generais, grileiros e a indústria do garimpo não procuram potássio. Eles querem invadir terra preservada, destruir o meio ambiente, saquear bens coletivos, ameaçar a vida dos povos que protegem a Amazônia, desde antes da chegada dos europeus.

Muitos projetos destruidores do futuro estão sendo aprovados pela Câmara. Um deles aumenta o uso de agrotóxicos quando em outros países está se fazendo o caminho contrário, de redução da quantidade de veneno na agricultura. Outro transforma em proprietários os grileiros de terra pública. Há várias maldades andando no Congresso. As forças que se alinham com o atual presidente querem demolir o que podem e saquear o que conseguem diante do risco de derrota eleitoral. Muitos desses políticos que assim votam continuarão no parlamento em qualquer cenário da eleição presidencial. O que fazer?

Orlando Brito, o grande fotógrafo que acabamos de perder, nos deixou uma lição profunda e definitiva. Por piores que sejam as decisões do Congresso, é só com ele aberto que podemos resgatar o futuro. Em 1977, quando os militares fecharam o Congresso, Brito conseguiu entrar e fotografou o plenário vazio. A imagem que ele registrou para a História é dramática. Sua lente mostrou o nada, a morte da democracia. “Você não faz ideia do que é um plenário vazio, mudo, fechado”, disse Brito numa entrevista que deu à TV Senado. A lente do fotógrafo indicou o caminho: é com mais democracia que vamos reconstruir o que está desabando agora sob o impacto das bombas.

A Ucrânia vive uma tragédia de muitas dimensões. Uma delas é que o país já estava em declínio de sua população. Em 1990, quando atingiu o pico populacional, o país tinha 51 milhões de habitantes. Em 2020, tinha 44 milhões. Encolheu em sete milhões de pessoas neste período. Agora, em duas semanas saíram do país dois milhões de ucranianos. Sem falar nos que morreram ou morrerão.

Não temos no Brasil uma guerra, mas tem sido exaustiva a luta diária para manter a viabilidade do futuro.

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

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