O dever de casa que o Procurador-Geral da República não fez – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM

Aras, um fiel servidor de Bolsonaro

Por Ricardo Noblat – Atualizado em 11 Jun 2020, 05h37 – Publicado em 11 Jun 2020, 08h00

O Procurador-Geral da República, Augusto Aras Andressa Anholete/Getty Images

De duas, uma. Ou Augusto Aras, por ignorância ou falta de tempo para estudar o assunto, não sabe o que é notícia falsa e desconhece o papel do jornalismo, ou sabe, mas preferiu comportar-se como um fiel aliado do presidente Jair Bolsonaro a exercer o seu papel de Procurador-Geral da República.

Na sessão do Supremo Tribunal Federal que começou a julgar, ontem, a validade do inquérito que investiga ataques aos ministros da Corte por meio de notícias falsas publicadas nas redes sociais, ele recomendou que as pessoas leiam jornais com cuidado. Só assim evitarão acreditar em notícias falsas.

Segundo Aras, notícias falsas não são disseminadas apenas por blogueiros e redes sociais, mas também por “todos os segmentos de comunicação moderna”. Bastava ter consultado o Google para não produzir tamanha estupidez. Ao digitar ali “O que é fake news”, receberia 1.110.000.000 resultados em 0,37 segundos.

Os “segmentos da comunicação moderna”, se entendidos por aqueles que representam a imprensa tradicional (jornais, emissoras de rádio e de televisão), não publicam notícias falsas. Quando publicam notícias erradas, logo se corrigem. Seu patrimônio é a credibilidade. Se o perdem, não valem nada.

O paraíso das notícias falsas são as redes sociais. Porque ali o anonimato é permitido, bem como o uso de robôs para disseminar as notícias. É um território sem lei ou acima das leis. Nem todos os que repassam notícias falsas sabem que falsas elas são. Mas seus criadores sabem, e se valem delas para enganar o público.

Por falsas, elas só fazem mal. Ou não fez mal a declaração de Bolsonaro de que a pandemia do Covid-19 não passaria de uma gripezinha? Àquela altura, ele já sabia que não seria assim. Mas optou por falsificar a verdade. Dê-se de barato que acreditava ou que quis acreditar nos efeitos da cloroquina contra o vírus.

E que acreditava também que seria capaz de governar sem entregar cargos ao Centrão. É mais difícil acreditar que fosse inocente quando prometeu acabar com a reeleição, inclusive para ele. Ou quando insiste em dizer que a facada que levou foi obra da esquerda e não de um perturbado mental como concluiu a Justiça.

Há verdades que não são uma questão de escolha – eu acredito nesta, você naquela. A Terra é redonda, não é plana, ponto. O desmatamento da Amazônia só cresce desde o início do governo Bolsonaro, ponto. Desrespeitar a Constituição é crime, ponto. É do Supremo a última palavra sobre a Constituição, ponto.

O Procurador-Geral da República não se subordina ao presidente da República, ponto. Dele se espera que proceda com independência. É o que falta a Aras. Seu nome ficou de fora da lista tríplice votada pelos demais procuradores. Deve sua escolha a Bolsonaro. Mas não precisa ser um capacho dele, como tem sido.

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