O dia em que Maradona teve overdose de pão – MARCO NOGUEIRA, FOLHA, COZINHA BRUTA

O dia em que Maradona teve overdose de pão

Don Diego Armando Maradona havia deixado a clínica sem autorização médica. Disse que prosseguiria com o tratamento em Cuba, onde se tornara amigo de Fidel Castro. Enquanto preparava a viagem, instalou-se num sítio nos arredores de Buenos Aires. O ano era 2004.

Levaram-no de volta, às pressas, para a UTI. O Pibe de Oro fora acometido de algo que o boletim médico descreveu, na suprema elegância, como “transgressão alimentar”.

O diário argentino “Página/12” narra a rotina do craque no interregno das internações:

“Durante os quase seis dias em que esteve no sítio, Maradona (…) comeu churrasco, miúdos, bife à milanesa, tudo com abundante sal, tomou vinho tinto e não se privou nem das massas nem das facturas.”

“Factura” é uma palavra sem equivalente em português. Refere-se genericamente aos pães e doces que os argentinos comem para acompanhar o café ou o mate.

A factura mais célebre é a medialuna, nome regional do croissant. Medialunas banhadas em calda de açúcar, com um pote de doce de leite à parte –a absoluta perdição glicêmica.

Pois bem: Maradona recebeu, no tal sítio, uma equipe de vôlei que lhe presenteou com uma bandeja de facturas diversas. Segundo consta, devorou-as todas em tempo recorde.

Na época, o jornal “O Estado de S. Paulo” cravou: o motivo da nova internação de Diego era uma “overdose de croissants”.

Overdose de pão, minha gente. Depois vocês colocam o peso de todo o mal do mundo nas costas das drogas ilícitas.

A cocaína não acabou com Maradona. Maradona acabou consigo mesmo recorrendo à cocaína, aos remédios prescritos, ao churrasco, aos pãezinhos, ao álcool. Outra do anedotário maradonesco: em 2007, o ex-jogador foi parar no hospital mais uma vez, após consumir dez garrafas de vinho espumante em 48 horas.

Diego Maradona era movido pela compulsão, pela falta de limites. Aí entra o nó que as mentes simplórias não conseguem desatar: ele não teria sido Maradona sem a personalidade compulsiva.

Apologia às drogas? Não. Glamurização da psicodependência? Longe de mim. Maradona não é exemplo a ser seguido. A despeito disso, tornou-se gigante apenas porque era caótico, obsceno, ofensivo, um tanto escroto, irresponsável, doido varrido, provocador e, acima de tudo, autêntico.

Sem essa combinação de características, ele poderia ser um ótimo atleta –o futebol está cheio deles. Sem o talento excepcional, talvez empacotasse antes da idade adulta. São contradições que certa narrativa tosca, com pretensões pedagógicas, ignora completamente.

Maradona era Maradona porque não sabia se comportar. Diante de um pino cheio de pó ou de uma bandeja cheia de pães. Não sabia se comportar, nos moldes estabelecidos, diante de uma bola de futebol –assim, derrubava com facilidade o oponente atarantado.

Para o próprio bem, ninguém deve ser como Maradona. Ninguém quer ser Maradona. Maradona não queria ser Maradona quando morreu rico e triste como um tango.

O dia em que Maradona teve overdose de pão – MARCO NOGUEIRA, FOLHA, COZINHA BRUTA
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