‘O ESCÂNDALO’: A BATALHA DAS LOIRAS – ISABELA BOSCOV, VEJA.COM

Entretenimento

Por meio de duas personagens reais e uma fictícia, filme disseca os mecanismos que levam mulheres empoderadas à cumplicidade com uma cultura de assédio

Por Isabela Boscov – 

MARGOT ROBBIE (à dir.) – como Kayla Pospisil: um composto de vinte mulheres que conversaram com os roteiristas mas não podem se identificar por terem assinado acordos de confidencialidade Hilary B Gayle/LionsGateJohn Medina/Jon Kopaloff/Getty Images

Kayla (Margot Robbie), uma jovem produtora que se define como uma “millennial evangélica” e se sente perfeitamente à vontade com a doutrina ultraconservadora e não raro agressiva da Fox News, acha que não ouviu direito. Ouviu, sim. Mas, para que não reste dúvida, o sujeito repete o que acabou de dizer: que Kayla suba o vestido até acima da calcinha e dê algumas voltas para ele avaliar se ela merece ficar diante das câmeras. Kayla achou que ia conversar sobre seu progresso profissional; agora está horrorizada e quase chorando. O sujeito, idoso e corpulento, está salivando. E o espectador possivelmente estará se perguntando se, em pleno 2015, algo assim poderia ocorrer na sala do executivo-chefe de uma das maiores corporações de mídia do mundo. De acordo com os depoimentos concedidos aos realizadores de O Escândalo (Bombshell, Estados Unidos, 2019; já em cartaz no país) por cerca de duas dezenas de funcionárias ou ex-funcionárias da emissora, coisas como essa, e coisas bem piores, aconteciam regularmente. É com base nesses depoimentos anônimos que foi criada a personagem de Kayla Pospisil. Já as outras personagens vêm com seus nomes reais (confira os principais deles nas legendas da reportagem). Começam pelas duas outras protagonistas, as âncoras Megyn Kelly (Charlize Theron) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman). Passam por figuras célebres mas periféricas à história, como Bill O’Reilly e Rudolph Giuliani. E terminam com o sujeito da cena estarrecedora descrita acima: Roger Ailes (John Lithgow), então presidente da Fox News, xamã da ultradireita americana e pivô de um escândalo sem precedentes, por ter feito da multidão de moças de vestidos curtos, pernas compridas e cabelos armados da emissora sua reserva sexual particular.

+ sse na Amazon

CHARLIZE THERON – como a âncora Megyn Kelly Hilary B Gayle/LionsGateJohn Medina/Jon Kopaloff/Getty Images

Como personagem e como atriz, é Charlize Theron a força que sustenta O Escândalo e corrige a rota às vezes errática do filme. Em 2015, escolhida pela Fox News para moderar os debates entre os pré-candidatos presidenciais republicanos, a âncora Megyn Kelly se viu puxada para uma briga de botequim com Donald Trump. Prata da casa e fiel à linha ideológica da emissora, a advogada de formação Megyn entretanto sentiu-se compelida a desobedecer a ordens e questionar o candidato sobre seu desrespeito habitual às mulheres. Furioso, Trump deflagrou um bombardeio de tuítes grosseiros contra a jornalista. No mais famoso deles, dizia que “ela estava sangrando pelos olhos, e por outros lugares”.

+

‘O ESCÂNDALO’: A BATALHA DAS LOIRAS – ISABELA BOSCOV, VEJA.COM
Rolar para o topo