O ESTADISTA E A ASSOMBRAÇÃO – MIRIAM LEITÃO, O GLOBO

O discurso de Joe Biden ontem à noite foi uma serena declaração de vitória, mesmo que ele tenha negado já ter vencido a eleição. Precisava confirmar seu lema de que “todo voto será contado”. Agiu e falou como um estadista tentando reunir o país após a eleição. No mesmo momento, o presidente Donald Trump queria parar a contagem dos votos. Trump continuará sendo forte após a derrota na eleição? Não. O que lhe deu força nos últimos quatro anos foi o extraordinário poder da presidência americana. Fora dela, será apenas o ex-presidente. Mas o país que sai das urnas está com fratura exposta, o que exigirá de Biden um enorme esforço para superar tão funda ferida.

O partido Republicano terá que fazer algum tipo de transição para uma liderança mais moderada para voltar a se comunicar com uma parte do eleitorado. Até por instinto de sobrevivência, precisará se afastar de Trump, o líder tóxico. O partido Democrata, mesmo vencendo a eleição, precisará de muita habilidade para governar. Primeiro, para costurar as diferenças das tendências internas, depois para governar sem o controle do Senado, e por fim, e mais importante, para reduzir a extrema tensão que dominou o país nos últimos anos.

O primeiro sinal de fraqueza foi dado por Trump quando cantou vitória na madrugada de quarta-feira, mas ameaçando ir à Suprema Corte, já falando em fraude. Era o seu melhor momento da apuração e Trump ameaçava. Deixou claro que na aparente calma com que falava e se declarava vitorioso, com tanto ainda a ser apurado, estava mais uma vez usando a estratégia de criar confusão. No final do dia de ontem ele exigia a recontagem dos votos em Wisconsin, uma tropa trumpista tumultuava um centro de apuração em Detroit, e ele falou em ir à Suprema Corte para parar de contar votos.

Confirmou-se desde o começo da apuração o cenário de um país dividido, em que uma parte do eleitorado é estimulada a não confiar nas regras do jogo, e no qual a eleição é decidida por pouco. O aumento da participação popular no processo eleitoral não trouxe a moderação, mas sim mostrou a profundidade da divisão do país. Na sociedade, isso indica conflitos e violência, e no sistema político, impasse e paralisia.

Para a economia é um cenário difícil. A recessão reduziu de intensidade no terceiro trimestre, mas os Estados Unidos ainda não recuperaram o que perderam. Como todos os países do mundo. A segunda onda da pandemia aprofundará a crise. A vitória de Biden fará com que nos próximos dois meses e meio um presidente lame duck (pato manco), que sempre negou a gravidade da pandemia, esteja ainda no comando do aparato governamental. O Congresso terá que encontrar caminhos para negociar o pacote de ajuda com o Congresso. E ontem até o líder trumpista no Senado, Mitch McConnell, disse que mais estímulos serão aprovados este ano.

Há problemas por todos os lados na sociedade americana, ela sai politraumatizada deste período de uma presidência conflituosa e que quebrou todos os protocolos. As velhas divisões raciais se somaram a uma radicalização religiosa e moralista. Donald Trump, como suas cópias no mundo, é pessoa totalmente distante dos valores de família e de religião que ele manipula. Também é apenas estratégia apostar na anticiência, nos delírios persecutórios, nas teorias da conspiração. Mas com isso ele conseguiu uma legião de eleitores. Suficiente para alimentar o discurso de descrédito das instituições, mas insuficiente para mantê-lo na Casa Branca.

Esses têm sido tempos de enorme desafio para a democracia, tempos que assombraram os corações das pessoas que sabem o que os extremistas de direita já fizeram contra a humanidade. No segundo mandato Trump iria escalar o trabalho de demolição da democracia americana. Ouvir palavras serenas de Joe Biden falando o que se espera de um vencedor, que se proponha a governar para todos, afastando a divisão entre estados azuis e vermelhos, é tranquilizador. “Foi uma campanha difícil, mas mais difícil para o país. É hora de baixar a temperatura, de ouvir um ao outro, de enxergar o outro, de respeitar e cuidar um do outro novamente. Unir, sarar e ficar juntos como uma Nação”, disse Biden. A realidade ainda trará as dificuldades e dores do tempo presente. Mas é esperança o que está diante de nós.

(Com Alvaro Gribel, de São Paulo)

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