O ex-Moro e o novo Bolsonaro – CARLOS ANDREAZZA – O GLOBO, RJ

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O ex-Moro e o novo Bolsonaro

Por Carlos Andreazza

O presidente da República não entende – não admite – o valor da impessoalidade e o conceito de autonomia, os quais opera por vergar. Sua fé é a de que, porque eleito, toda a máquina federal deva evoluir tutelada sob sua regência direta. Moro cai para que Bolsonaro possa – ele próprio, por meio de preposto – dirigir a Polícia Federal; interferir na Polícia Federal.

O problema de Jair Bolsonaro nunca foi Mauricio Valeixo. Mas Sergio Moro. Ou melhor – ajustando a preposição: o problema para Bolsonaro nunca foi Valeixo. Mas Moro. O presidente queria mudar – e mudou – o diretor da Polícia Federal porque considerava que o diretor da PF, na prática, era Moro; e que essa, esse poder, seria a razão por que o auxiliar se sentia armado (e protegido) para ser, na avaliação do bolsonarismo, pouco solidário a Bolsonaro: somente ministro da Justiça, e não ministro do chefe.

Lembremos que, em transmissão online mais cedo nesta semana, Eduardo Bolsonaro – que não fala senão para expressar a palavra do pai – deu o tom do sentimento bolsonarista ao cobrar, citando nominalmente Moro e Paulo Guedes, que os ministros, sobretudo em função da crise com Mandetta, se engajassem na defesa do presidente.

É pura exposição de patrimonialismo: o bolsonarismo quer que o ministro da Justiça, qualquer que seja o fulano, comporte-se como advogado de Bolsonaro (e da família) – e isto num nível de submissão ainda maior do que a já exercida por Moro, desde há muito curvando-se ante os arreganhos de Bolsonaro para progressivamente rebaixá-lo. Note-se que o ministro da Justiça se calou – contrariando a natureza de sua atuação pregressa – diante da afronta recente em que consiste a associação de seu chefe a notórios corruptos condenados. Calou-se; como calado esteve por dezesseis meses, emprestando sua imagem de altíssima moralidade – símbolo máximo do lavajatismo – a um projeto de poder para o qual, agora se vê, o combate à corrupção deve ser seletivo.

Sejamos francos: Sergio Moro – o ex-Moro – já não tinha existência como ministro desde há muito, esvaziado dia após dia por movimentos públicos do chefe. Mas foi ficando. Talvez porque tivesse pretensões políticas. Não sei. Segundo Bolsonaro: tinha e tem. Segundo Bolsonaro, pois: Moro ia ficando e controlando o próprio futuro ao manejar a agenda da Polícia Federal. Moro se vai porque Bolsonaro desconfiava de que o ministro fazia com a PF aquilo que ele, Bolsonaro, fará doravante.

Era uma relação insustentável. Bolsonaro não confiava em Moro. Moro não confiava em Bolsonaro. E ambos – penso – tinham razão.

O presidente fez seu jogo. Não o faz sem base em dados, em pesquisas, em levantamentos de calor de rede. Não se pode descartar que se tenha iludido com a experiência no caso Mandetta e a forma como conduziu seu desmonte. Os pensadores do bolsonarismo consideram que a perda de apoio em decorrência da queda do ex-ministro da Saúde não fora tão grande nem difícil de recompor; mas talvez sem dar o devido peso ao fato de que a emergência de Mandetta à condição de liderança popular não tinha a mesma base social, a mesma solidez, com que conta Moro – a própria encarnação do espírito do tempo lavajatista.

Moro é muito forte no que se chama de classe média, base social em que Jair Bolsonaro também firma seus pilares. O primeiro pilar bolsonarista, o orgânico: o da segurança pública. O segundo, mais recente, pilar de ocasião, a que o então deputado federal se associou ao compreender perfeitamente a demanda jacobinista da sociedade: o combate à corrupção como prioridade. É essa segunda sustentação – fincada no solo da classe média – a que Bolsonaro estremece, racha mesmo, ao perder Sergio Moro. Não é pouca coisa.

O presidente não bota em risco essa fundação sem crer ter outra escora na qual investir. A empreitada de enfrentamento da COVID-19 deu o ensejo. A política econômica desenvolvimentista – a que, tudo indica, estatizará o Posto Ipiranga – tem como principal vitrine um poderoso auxílio à população pobre, inclusive no Nordeste, extrato da sociedade ao qual Bolsonaro nunca se virou; mas que, segundo apontam pesquisas, ora segura a sua popularidade em patamar competitivo.

Por vários motivos, é possível falar em Bolsonaro – numa aposta ousada – trocando de pele, sob o sol, desnudado e queimado também pelo pronunciamento duro de Moro, para inaugurar um novo governo ainda antes do meio do segundo ano de sua gestão. (O presidente, tomando tremendo risco, aposta também, suponho, em que Moro perderá visibilidade e vigor uma vez sem a vitrine do Estado.)

Sobre Sergio Moro, apesar de seu discurso contundente (o melhor que já o vi fazer), sai menor do que entrou. Não me surpreenderei, porém, se logo voltar à ribalta – para ganhar corpo e projeção – tornando-se, em sua melhor lâmina jacobinista, aquele Robespierre, cortador implacável de cabeças, que no passado concorreu decisivamente para a eleição de Jair Bolsonaro. Desta vez, conforme ensina a história, contra Jair Bolsonaro.

O ex-Moro e o novo Bolsonaro – CARLOS ANDREAZZA – O GLOBO, RJ
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