O FIM DOS JORNAIS – LUIS FRANCISCO CARVALHO FILHO, FOLHA

O fim dos jornais
Liberdade de imprensa só é bom contra os outros

“Não se briga com todos ao mesmo tempo”. O comentário é de Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), publisher da Folha, a propósito do jornal acumular contenciosos (políticos e judiciais) com o presidente da República, José Sarney (1985-90), com o governador de São Paulo, Orestes Quércia (1987-91), e com o prefeito da capital, Jânio Quadros (1986-89).

Com bom humor, seu Frias, como era chamado, registrava preocupação com a saúde financeira da empresa, mas identificava, sobretudo, o potencial mercadológico de uma publicação “contra” todos —o que não significa ser “contra” tudo.

A Folha exerce uma função crítica e informativa inestimável. Desde o fim do regime militar, incomodou todos os governos, sem exceção.

A invasão da Polícia Federal, para apurar suposto desrespeito a plano econômico, e a ação penal contra Otavio Frias Filho, para retaliar a revelação do favorecimento de agências de publicidade pelo Palácio do Planalto, ilustram o estilo beligerante de Fernando Collor de Mello (1990-92).

Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) guardou palavras mais amargas para a posteridade. Em “Diários da Presidência” (volume 3, lançado em 2017), menciona uma “aliança implícita, tácita, mesmo que eles [proprietários da Folha] não queiram, com as posições extremadas do PT”. Em outro momento anota: “Agora é contra mim, amanhã será contra o Lula”, sentenciando que o jornal, arrogante e niilista, não tem responsabilidade “pública”.

Foi durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-11) que se cunhou, entre petistas, a expressão “PIG” (“Partido da Imprensa Golpista”), para difamar veículos de comunicação, entre eles a Folha, que, na visão oficial, são contra o PT, que, por sua vez, sempre quis “regulamentar” a mídia.

Liberdade de imprensa só é bom contra os outros.

Bolsonaro não esconde o desejo (ainda que se manifeste covardemente, sempre amainando o pensamento com alguma ressalva infantil) de acabar com a Folha.

É grave um presidente da República incitar a população a não “comprar” um jornal, um produto, ou a não sintonizar determinada emissora de rádio ou televisão.

Não é coincidência que, na mesma semana da celebração dos 100 anos, Jair Bolsonaro diga que o “certo é tirar de circulação” os jornais —entre eles a Folha, é claro—, que, a seu ver, são “fábricas de fake news”.

Quando desburocratiza o porte de armas, Bolsonaro sustenta as liberdades individuais e a segurança do cidadão: não importa o estímulo à violência. Quando quer imunidade para policiais corruptos e assassinos, defende quem se “arrisca” por nós e o apoia.

Quando estimula a falência econômica e moral dos veículos de comunicação que escolhe, Bolsonaro quer que a população tenha acesso à “verdade”, oculta pelo jornalismo profissional ou esquerdista.

A ONG Repórteres sem Fronteiras informa que 85% dos ataques desferidos por autoridades contra jornalistas, organizações e imprensa em geral no Brasil, em 2020, partiram da quadrilha Bolsonaro: Eduardo (208), Jair (103), Carlos (89) e Flávio (69). Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, encabeça a lista de ministros, com 19 ataques.

Jair Bolsonaro é inimigo da liberdade de imprensa, um mal a ser eliminado.

O fim dos jornais é vigiar o poder público. O jornalismo não acaba, ainda que se transforme. Os governos passam.

Parabéns, Folha de S.Paulo. Pela história. Pela intransigência. Por existir.

Luís Francisco Carvalho Filho
Advogado criminal, presidiu a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (2001-2004).

lfcarvalhofilho@uol.com.br

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