O interesse amazônico – André Gustavo Stumpf – VEJA.COM

Governo brasileiro largamente criticado

Por André Gustavo Stumpf – Atualizado em 13 Jul 2020, 04h26 – Publicado em 13 Jul 2020, 10h00

Incêndio na Amazônia: enquanto no mundo espera-se redução de 7% nas emissões, Brasil aumentou em 51,4% a derrubada das florestas – 10/09/2019 Bruno Kelly/Reuters

Henry Ford estava de bom humor no dia 9 de janeiro de 1928 na inauguração da Exposição Industrial Ford acompanhado pelo filho Edsel e pelo amigo Thomas Edison, em Nova Iorque. Ele comemorava o lançamento do Ford modelo A, que substituiu o famoso modelo T. Na entrevista coletiva, anunciou que havia obtido a concessão da área de 14.568 quilômetros quadrados, tamanho semelhante ao estado do Tennessee, nas margens do rio Tapajós, afluente do Amazonas, a mil quilômetros do oceano Atlântico.

Ali surgiu a Fordlândia.

O interesse estrangeiro pela Amazônia é antigo. Desde que Francisco Orellana, em 1542, desceu o rio a partir de Quito, no Equador, até Belém do Pará, olhos europeus revelaram cobiça por aquela área. Franceses por exemplo manifestaram interesse em tomar o Amapá. Ingleses andaram por toda a região até descobrir o látex, quando encontraram um grupo de índios praticando esporte parecido com o futebol. A novidade era a bola que tinha elasticidade e quicava no solo sem perder sua forma original.

Os ingleses encontraram as mudas da seringueira, que foram contrabandeadas para a Malásia, região com clima tropical semelhante ao amazônico. A borracha asiática exterminou a produção brasileira que proporcionou período de extraordinário crescimento às cidades de Manaus e Belém. Mas, Henry Ford decidiu que ele produziria a borracha para equipar seus carros.

O primeiro ato de sua conquista da Amazônia foi promover um incêndio devastador. Ele precisava abrir espaço para fazer a sua plantação e construir a Fordlândia. Apesar do vultoso investimento, deu tudo errado. Depois da morte de Henry Ford, seu neto Henry Ford II devolveu as terras ao governo do Pará.

A floresta constitui uma espécie de desafio a aventureiros de todos os matizes. Ela provê ingredientes importantes para a medicina no mundo, além de animais exóticos, peixes diferentes e culinária sensacional. Sua paisagem é única no ocidente. Não há nada igual. Aos trancos e barrancos ela foi preservada. Nas grandes planícies norte-americanas o homem branco exterminou flora e fauna e acabou com os indígenas. O general Custer dizia que índio bom é índio morto.

Agora a pressão vem de outra forma. O vice-presidente Hamilton Mourão organizou reunião com investidores estrangeiros. Sugeriu que eles financiem projetos na área de meio ambiente no Brasil. Os empresários, no entanto, não se comprometeram a investir e pediram que o governo mostre resultados no combate ao desmatamento da Amazônia.

Entre os projetos apresentados aos investidores estavam alguns financiados por meio do Fundo da Amazônia, o Floresta Mais e o Adote um Parque, pelo qual serão ofertados mais de cem parques nacionais para empresas privadas interessadas em manter e conservar esses espaços.

O governo brasileiro é largamente criticado pela sua política de meio ambiente. Grandes fundos investidores enviaram mensagem a embaixadas brasileiras manifestando preocupação com o avanço do desmatamento na Amazônia. Empresários brasileiros perceberam que estrangeiros ameaçam retaliar produtos brasileiros no exterior por causa da falta de defesa do meio ambiente. O assunto é delicadíssimo. Fazendeiros norte-americanos não hesitam em afirmar que ‘farms here, forest there’. Fazendas aqui, florestas lá. Mais claro impossível.

O vice-presidente da República Hamilton Mourão é o presidente do Conselho Nacional da Amazônia. Ele organizou encontro virtual com dez dos maiores investidores, que possuem cerca de US$4,5 trilhões em caixa. Abriu-se a mesa de negociação. A única medida objetiva foi a promessa de proibir queimadas no período da seca, ou 120 dias, tanto na Amazônia quanto no Pantanal.

As duas partes têm suas razões. Mas, o vice-presidente, que conhece bem a Amazônia precisará de muita habilidade para caminhar neste território. O interesse nacional tem muito dinheiro por trás. Há garimpeiro porque há ouro. E os estrangeiros não defendem a Amazônia só para fotografar jacaré. Há interesse econômico.

A Secretaria de Comunicação Social (Secom) prepara campanha de relações públicas com a agência Hill+Knowlton na Europa para melhorar a imagem do Brasil junto aos veículos de imprensa europeus preocupados com a gestão das políticas de meio ambiente no Brasil. A agência pretende colocar como porta-voz do governo brasileiro o notório ministro Ricardo Salles. Difícil dar certo. No projeto de comunicação há previsão de entrevista do ministro Ernesto Araújo, adversário da globalização. No momento de recuperação da economia brasileira, o risco é enorme. O Brasil não precisa passar por essa pandemia de obscurantismo.

O general Mourão arranjou uma boa briga.

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