O PARASITA – VERA IACONELLI – FOLHA

Pesquisa de Elizabeth Ann Danto serve de inspiração em tempos sombrios

Em setembro de 1918, Freud fez um discurso lendário no 5º Congresso Psicanalítico Internacional, em Budapeste, exortando os psicanalistas a assumirem seu compromisso com a saúde pública.

A Europa ainda vivia as atrocidades da 1ª Grande Guerra quando ele afirmou que a psicanálise, a exemplo dos demais tratamentos de saúde, deveria estar ao alcance da população gratuitamente. 

A repercussão de sua fala insuflou o atendimento psicanalítico gratuito, que já estava na pauta dos psicanalistas. 

Lembremos que nessa época o sofrimento psíquico dos combatentes era considerado covardia e falta de patriotismo.

Coube a Freud a conceituação das neuroses de guerra e a possibilidade de tratar os soldados pela análise, com resultados amplamente reconhecidos. 

Cena do filme "Parasita" (2019), de Bong Joon-ho
Cena do filme “Parasita” (2019), de Bong Joon-ho – Divulgação

As clínicas se espalharam por várias capitais europeias e tiveram a participação de mulheres pioneiras como Helen Deutsch, Anna Freud, Hermine Hug-Hellmuth, Therese Benedek e muitas outras.

Graças à colossal pesquisa de Elizabeth Ann Danto, temos acesso à história minuciosamente documentada desse movimento, que floresceu até a chegada do nazismo ao poder.

História que permaneceu esquecida pelos herdeiros de Freud em função do exílio a que os envolvidos foram forçados e da necessidade de se livrarem da fama de comunistas.

Aliás, o termo comunista sempre volta como palavrão, quando a preocupação com as minorias —maioria numérica da população— é vergonhosamente confundida com coletivização da miséria. 

Os anos 1920, chamados “anos loucos”, foram de grande ebulição artística com as composições de Schoenberg, a arquitetura de Gropius, o cinema de Eisenstein, a dança de Isadora Duncan impulsionando a modernidade. 

O que a audiência de Freud em Budapeste não poderia imaginar era que em pouco mais de uma década enfrentariam Goebbels e Hitler. Tampouco nós brasileiros imaginávamos que enfrentaríamos, cem anos depois, um secretário da Cultura neles inspirado. 

Aqui, foi necessária a reação imediata de toda a sociedade para nos livrarmos do exemplar tupiniquim da paranoia nazista que, por sua vez, deu lugar à histeria coletiva da “namoradinha do Brasil”.

O trauma pelas recentes trocas ministeriais, que têm sido da água para o vinagre, nos deixou com a política do menos pior. O que nos sustenta hoje no Brasil é a esperança de que os próximos anos desse governo-pesadelo passem logo e que a eles sobrevivamos. 

E para lembrar porque a arte é tão temida por regimes autoritários vale assistir a “Parasita” de Bong Joon-ho (2019).

No que tange à impossibilidade dos miseráveis se inserirem no mercado de trabalho, a Coreia do Sul é nossa alma gêmea. A família do filme é trambiqueira, desonesta e faz qualquer picaretagem para conseguir, basicamente, trabalho. 

Que nos sirva de inspiração, então, o livro de Danto, recém-traduzido para o português como “As Clínicas Públicas de Freud: Psicanálise e justiça social” (Perspectiva, 2019), cuja leitura reproduziu o arrebatamento do discurso de Freud sobre os jovens psicanalistas brasileiros —os que se sentem indignados com o recrudescimento da violência de Estado, com o mal disfarçado discurso nazista e com a precarização dos serviços públicos. 

Para a psicanálise o homem está condenado à repetição —como constatamos nos fatos históricos— e só o ato ético singular é capaz de romper essa cadeia infernal.

O ato de Freud foi revelar que do inconsciente ninguém escapa e que, ao tentar fazê-lo, criamos os bodes expiatórios de ocasião. Qual é o nosso?

Vera Iaconelli

Diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP.

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