O preço que Bolsonaro pagará por ser quem é – RICARDO NOBLAT – VEJA.COM

À espera de vê-lo na tela

Por Ricardo Noblat – 19 maio 2020, 09h00

O presidente Jair Bolsonaro durante protesto realizado por seus apoiadores, em Brasília Adriano Machado/Reuters

Previsão compartilhada por ministros de tribunais superiores em Brasília e advogados com larga experiência em assuntos dessa natureza: do ponto de vista legal, dará em nada para o presidente Jair Bolsonaro a denúncia do ex-ministro Sérgio Moro de que ele tentou intervir politicamente na Polícia Federal.

E também dará em nada a denúncia de que ele soube com antecedência do adiamento da operação da Polícia Federal, no Rio, que resultaria na prisão de deputados envolvidos com corrupção. A operação traria a público o esquema da rachadinha, comandado por seu filho Flávio e seu amigo de mais de 40 anos, Fabrício Queiroz.

Quando trouxe, sobrou até para Michelle, mulher de Bolsonaro, em cuja conta bancária apareceu dinheiro de Queiroz. Bolsonaro apressou-se em dizer que era dinheiro de uma dívida, contraída por Queiroz com ele. Assessorado por advogados indicados por Bolsonaro, Queiroz nada disse que pudesse comprometer a família.

Segundo ministros e advogados, será muito difícil provar que Bolsonaro cometeu crime de obstrução de Justiça só por ter manifestado sua intenção de mandar diretamente na Polícia Federal. Mesmo que se prove que vazou para ele a informação sobre o adiamento da operação da Polícia Federal, foi antes da eleição.

Presidente da República só pode ser processado por crime cometido no exercício do cargo. Não foi o caso. Bolsonaro sofrerá, sim, desgaste político com as duas revelações. Mais com a primeira, se o ministro Celso de Melo, do Supremo Tribunal Federal, liberar para divulgação integral o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril último.

Que tal assistir Bolsonaro ameaçar de demissão Moro e o diretor-geral da Polícia Federal? Que tal ouvir os palavrões que ele costuma dizer quando está nervoso? E a gargalhada que deu quando o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chamou o coronavírus de “comunavírus”, culpando a China por sua criação?

Como Bolsonaro reagiu quando o ministro da Educação sugeriu a prisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal, e a ministra da Mulher e dos Direitos Humanos acrescentou que governadores e prefeitos também deveriam ser presos? O vídeo eternizou muitas outras coisas capazes de envergonhar até devotos dessa gente.

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