O que fazer com as estátuas? – CORA RONAI, O GLOBO

O que fazer com as estátuas?

Talvez monumentos antigos sirvam para nos fazer refletir sobre o perigo de transformar monstros em mito

Em outubro de 2015 havia um barzinho numa pequena cidade chinesa que parecia um pesadelo histórico: as paredes estavam cobertas de cartazes de propaganda política do século passado, misturados com retratos de Stalin, Lenin, Pol Pot, Kim Il-Sung, aqui e ali um pouco de memorabilia nazista e fascista, o onipresente Mao e nosso velho conhecido Che. A decoração era menos orientada pela ideologia do que pela estética. O barzinho obviamente queria chamar a atenção dos turistas estrangeiros, e nisso era bem sucedido.

Não sei se continua lá. Esqueci o nome da cidade onde fica, mas sempre que antigos heróis são descredenciados, ele me volta à lembrança. Foi o caso essa semana, quando manifestantes derrubaram a estátua de um traficante de escravos em Bristol e, em Antuérpia, uma estátua do Rei Leopoldo, que cometeu atrocidades no Congo, foi removida da via pública depois de ser depredada.

Não há nada de novo nisso, é claro. Faraós egípcios já desfiguravam os monumentos de seus antecessores desde o Antigo Império, há cinco mil anos, e a própria Bíblia conta como Moisés queimou o bezerro de ouro construído enquanto ele confabulava com o chefe. Outros iriam imitá-lo tempos depois, em Bizâncio, durante o Século VIII, ao tentar acabar com a adoração a ídolos destruindo imagens sacras.

A palavra “iconoclastia”, que surgiu naquela época, vem do grego e significa, literalmente, “quebrar imagens”.

Quando a União Soviética implodiu, milhares de monumentos vieram abaixo nos países oprimidos: só a Ucrânia, sozinha, deu cabo de nada menos do que 1.320 estátuas de Lênin. A Espanha se livrou da última estátua de Franco em 2008; em Portugal, duas estátuas de Salazar, homem mais discreto, estão trancadas num almoxarifado em Santa Comba Dão, e são uma batata quente para a municipalidade.

Nos últimos anos, de forma mais ou menos barulhenta, monumentos erguidos em homenagem aos confederados têm sido removidos de locais públicos nos Estados Unidos. Já somam 114. Alguns vão parar em museus, mas o destino da maioria é o quartinho de vassouras.

Aqui no Brasil, monumentos aos bandeirantes estão na mira de manifestações.

Tenho sentimentos ambivalentes em relação a isso: não sei se a melhor forma de lidar com o passado é suprimindo os seus marcos, até porque eles vão bem além de eventuais esculturas aqui e acolá.

Achei perfeita a ideia de Banksy de fazer da estátua sendo derrubada a própria estátua, mas essa é uma saída única que perde impacto se for repetida.  

Budapeste soube dar um destino interessante ao seu lixo autoritário e criou um cemitério de heróis obsoletos, uma espécie de parque dos vilões, onde foram reunidas todas as estátuas e monumentos da era soviética que escaparam à destruição.

Deve haver um meio termo entre o barzinho chinês, onde se bebe despreocupadamente à sombra de tiranos, e o rolo compressor da revolta. É doloroso e ofensivo ver homenagens a monstros, mas apagá-las não altera o fato de que a história humana é repleta de monstros.

Talvez monumentos antigos sirvam justamente para nos fazer refletir sobre o perigo de transformar monstros em mito.

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