O rei corrupto e o Brasil – ASCANIO SELEME, O GLOBO

É quase incrível a história de Juan Carlos I

Por princípio, reis só devem satisfação a Deus. Alguns, ao longo da história, se posicionaram até mesmo acima de Deus, ou compartilharam com ele o mesmo poder hegemônico, indiscutível e sublime. No mínimo, eram tratados como escolhidos por Deus. Em tempos remotos, dispunham sobre todas as questões terrenas, inclusive sobre a vida e a morte dos seus súditos. Hoje, são figuras ainda cultuadas por seus povos, como Elizabeth II, do Reino Unido, mas no extremo reúnem apenas alguns dos poderes de chefe de Estado, normalmente os de representação. Mesmo assim, têm todas as suas contas pagas pelo contribuinte. E mantêm séquito de empregados para cumprir as tarefas do dia dia. Nunca se viu um rei numa padaria comprando presunto.

Por isso, é quase incrível a história de Juan Carlos I. Peça-chave na redemocratização espanhola depois da ditadura do generalíssimo Franco, Juan Carlos reinou por quase 40 anos, de 1975 a 2014, abdicando em favor do filho Felipe VI quando começaram a surgir os primeiros indícios de que havia algo podre àquela altura do seu longevo reinado. Disse que deixava o trono diante de “certos acontecimentos” de sua vida privada. Não os explicitou, mas se referia ao início das investigações na Suíça que revelariam propina de US$ 100 milhões paga pela Arábia Saudita pela intermediação de um negócio com empresas espanholas. Na segunda-feira, anunciou que deixaria a Espanha para não atrapalhar o reinado do filho.

Este seria mais um caso de corrupção, como tantos outros que frequentam o noticiário global, se não tivesse sido cometido por um rei. Um rei que não deve nada a ninguém, que nem conta bancária deveria ter em seu nome. Que não precisa de carteira, pois não carrega dinheiro nem documento. Alguém já viu um rei pagando almoço em restaurante? Dando seu cartão de crédito ao garçom, digitando a senha e pedindo recibo para prestar conta? Ou apresentando seu passaporte na Imigração quando visita um país? Oras, um rei não precisa de nada disso. Então, por que ele fez lobby, recebeu propina e abriu conta secreta na Suíça? Essa é a questão que deveria ser respondida, mas não pelo rei corrupto, e sim por psicanalistas.

Juan Carlos tinha 78 anos quando foram iniciadas as investigações sobre lavagem de dinheiro e fraude fiscal de Sua Majestade. Como tinha tudo, o que faria com os US$ 100 milhões sauditas? Satisfazer a uma amante alemã, que surgiu na história, parece exagerado. Tampouco era dinheiro para campanha, porque rei não precisa se reeleger. Seu cargo é vitalício. Só perde a função com a morte ou pela renúncia. O próprio Juan Carlos costumava dizer que “reis não abdicam, morrem na cama”. Mas ele acabou abdicando diante do escândalo que ameaçava a própria coroa. Então, o que o moveu em direção ao pântano? A velha natureza humana, quem sabe?

Na vida real (no sentido de cotidiana, não de realeza), são inúmeros os casos de corrupção miúda ou graúda por aqui e mundo afora. Em alguns mais graúdos, vimos pessoas e instituições quase tão grandes quanto o rei da Espanha jogarem fora prestígio, respeito e liberdade por fazerem uso de dinheiro público de modo privado ou por motivação política. No Brasil, a corrupção é uma praga do tamanho da extrema pobreza que desgraça 14 milhões de brasileiros. Diante dessa tragédia nacional, torpedear o combate à corrupção é tão incompreensível quanto um rei roubar.

Os últimos ataques à Lava-Jato demonstram falta de apreço à transparência e mais uma vez revelam a velha cegueira deliberada. Se não vejo, não me incomodo, não puno. Talvez seja isso o que tenha colocado o procurador-geral Augusto Aras do outro lado do balcão. Pela mesma razão, o senador Flávio Bolsonaro, um dos zeros do presidente da República, acusou sem nominar integrantes da força-tarefa de ter motivação política ou financeira, reclamando, vejam só, do volume de suas operações contra a corrupção. Esse é o nosso Brasil, que não por acaso um dia também teve rei.

O rei corrupto e o Brasil – ASCANIO SELEME, O GLOBO
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