O retrato avassalador de um homem senil por Anthony Hopkins em ‘Meu Pai’ – ISABELA BOSCOV, REVISTA VEJA

Em um desempenho formidável, o ator empresta seu nome, sua data de nascimento e sua persona a um protagonista — para então mergulhá-lo na demência

DRAMA - Hopkins, o pai, com Olivia Colman, a filha: desintegração mental na qual não há companhia -
DRAMA - Hopkins, o pai, com Olivia Colman, a filha: desintegração mental na qual não há companhia – Sean Gleason/Elevation Pictures/Divulgação

Não há dúvida de que o apartamento que se vê em cena pertence ao homem que ali está: o gosto masculino e decidido, o ambiente que transpira hábitos há muito vividos — tudo é como que um reflexo de Anthony (Anthony Hopkins), que ainda irradia a racionalidade, a competência e a autoridade de que provavelmente desfrutou a vida inteira. Anthony, que Hopkins interpreta com formidáveis inteligência e desassombro, descarta impaciente as preocupações da filha e, para fazer pouco delas, faz pouco da própria Anne (Olivia Colman) e a fere com comentários maldosos. Anthony está marcando território, no sentido figurado e também no literal: pelo jeito como Anne entra no apartamento, pressente-se uma regularidade maior nas suas visitas; e, embora ela disfarce melhor do que muitos a apreensão, o pai é perceptivo demais para não se ressentir dela — porque, apesar de não admiti-lo nem para si mesmo, ele reconhece os sinais que Anne está detectando. Por exemplo, quando entra na sala de sua casa e encontra nela um estranho que diz ser seu genro e, em outra ocasião, outro estranho ainda, que alega o mesmo (mas Anne não está divorciada?, pergunta-se ele). Ou ainda quando sua casa lhe parece estranha, com móveis diferentes e paredes de outra cor — ou quando ela lhe parece exatamente igual, mas Anne afirma que é no apartamento dela que ele mora agora. Às vezes, nem Anne é a mesma: em algumas cenas, Olivia Williams toma o lugar de Olivia Colman. A insegurança de Anthony, enfim, é brutal. Como observou a VEJA o dramaturgo e diretor francês Florian Zeller (leia entrevista), é como se sua vida se tivesse transformado em um quebra-­cabeça que nunca se encaixa.

Também o espectador luta para montar as peças de Meu Pai (The Father, Inglaterra/França, 2020), em cartaz nos cinemas de algumas cidades e já disponível para compra nas plataformas NOW, Apple TV e Google Play (a partir do dia 28 de abril, ele pode ser alugado nessas plataformas e também na Sky Play e na Vivo Play). Adaptando uma peça de sua autoria e usando com proficiência notável um recurso tão simples quanto a decoração do set, o estreante em cinema Zeller faz do próprio filme uma manifestação da demência que acomete seu protagonista e à qual Anne assiste, aturdida e em sofrimento. Mesmo a sensação inicial de progressão da doença aos poucos se desfaz: Anthony não está migrando daquela zona crepuscular entre a lucidez e a confusão para uma fase mais profunda de deterioração mental — está em plena deterioração, e mesmo o que parece lúcido a ele e ao espectador pode não passar de mero eco, ou de uma peça posta em lugar falso.

O retrato avassalador de um homem senil por Anthony Hopkins em ‘Meu Pai’ – ISABELA BOSCOV, REVISTA VEJA
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