O risco de parar a pesquisa da Covid – MIRIAM LEITÃO, O GLOBO

A quarta fase da maior pesquisa já feita sobre o coronavírus, a que é coordenada pela Universidade Federal de Pelotas, deveria ter ido para a rua ontem. Mas não foi. O Ministério da Saúde não respondeu sobre a continuidade do financiamento. As informações que os pesquisadores trouxeram até agora são valiosas: a taxa de infecção é seis vezes maior do que o notificado, criança adoece na mesma intensidade que os adultos, o índice entre indígenas é cinco vezes maior do que no resto da população. No Rio Grande do Sul, a pesquisa é financiada pelo setor privado e já garantiu oito fases. O pior problema da ciência no Brasil é o financiamento, que é pouco e inconstante.

No meio da pandemia, a ciência tem respondido de forma rápida e trazido resultados importantes para o país. Chega a ser emblemático o fato de que na manhã seguinte ao Dia da Ciência, comemorado na quarta-feira, uma pesquisa essencial para o país tenha sido interrompida. A coleta de dados foi feita com intervalos de 14 dias. O país e o mundo estão exigindo respostas rápidas e claras da ciência nesta pandemia. O que é este momento? Perguntei para o professor Pedro Hallal, da Universidade de Pelotas, que coordena a pesquisa.

— A pandemia nos colocou desafios que a gente precisava enfrentar. O tempo da ciência não é o tempo que a sociedade precisa dela, e a gente nem sempre se comunica da maneira que chega às pessoas. Temos respondido a esses dois desafios. A gente anuncia os resultados 72 horas depois de terminada a coleta de dados. E temos melhorado nossa comunicação, porque a ciência não podia dialogar apenas com ela mesma — disse Pedro Hallal.

O geneticista francês Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, dedicado ao fomento da pesquisa, tem a mesma impressão de que o tempo se acelerou:

— A resposta científica está sendo incrível. Em poucos meses já sabemos diagnosticar, identificar moléculas capazes de diminuir a mortalidade e muito provavelmente uma vacina vai ficar pronta em menos de 12 meses. Não me lembro de um processo tão rápido assim.

Há três anos no Brasil, Aguilaniu diz que os pesquisadores brasileiros são bons e criativos:

— A ciência brasileira é boa. A física teórica, a virologia e a matemática são de alta qualidade. O Impa é um centro de excelência internacional. Mas o Brasil sofre com a incerteza do investimento que vai e vem, avança e recua. Isso é terrível porque a pesquisa precisa de previsibilidade.

Serrapilheira é um dos financiadores da pesquisa do Rio Grande do Sul, junto com a Unimed Porto Alegre e o Instituto Cultural Floresta, que reúne um grupo de empresários. Ela juntou também 13 universidades públicas e privadas gaúchas. O Ministério da Saúde doou os testes.

— Mesmo com o subfinanciamento e o descrédito, quando a população mais precisou da gente, a gente está aqui de pé dando respostas. Eu faço uma homenagem aos pesquisadores brasileiros, porque se você parar para pensar, quais são as grandes pautas hoje do coronavírus? Vacina, medicamentos, dados epidemiológicos, impacto econômico. Tem um monte de pesquisador brasileiro envolvido em cada questão — diz Pedro Hallal.

O frustrante é ter que parar uma pesquisa que custou R$ 12 milhões e que trouxe respostas fundamentais para o Brasil. Ela foi concebida para ser em três fases, mas a epidemia continua e é preciso novas fases. A coleta domiciliar é feita por 2.300 pesquisadores que em 133 cidades testam por amostragem. Nesse grupo estão todas as capitais e um terço da população brasileira. Ela traz informações para as pessoas e as políticas públicas.

A ciência brasileira poderia ir longe. Hallal sabe que a pesquisa que fez pode salvar vidas. Hugo Aguilaniu não entende por que o Brasil não tem o maior centro de pesquisa de ecologia do mundo se tem a maior biodiversidade do planeta. O país, diz, não pode apenas produzir commodities, tem que gerar conhecimento. Se o Brasil quiser dar as costas para a ciência, ele pode. Mas será trair seu futuro.

(*) Escrevi esta coluna dentro da campanha #CientistaTrabalhando que comemora, durante o mês, o 8 de julho, Dia Nacional da Ciência. Aos cientistas brasileiros, o meu orgulho e meu agradecimento. 

Com Alvaro Gribel (de São Paulo)

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