O tempo não para. E nós? – NETO DEL HOYO, JORNAL DA CIDADE

O tempo não para. E nós?

por Neto Del Hoyo05/09/2020 – 05h00

Quem sobreviveu ao menos 35 primaveras para contar, certamente recorda com saudade de tempos onde a concepção de prazer parecia bem mais simples, com situações impensáveis no mundo pós-internet. É difícil explicar para os mais novos como era prático desenrolar a fita cassete com uma caneta Bic. Com 10 cm por 7 cm, na medida certa para caber no bolso, elas nos permitiram carregar para todo canto uma hora de nossas músicas preferidas (no caso das C-60, 30 minutos cada lado). Como não amar?

Parece que falamos de outro planeta, numa galáxia muito, muito distante. Mas a cassete representou uma revolução se comparada aos discos de vinil, que carregam a pureza do som que não foi limpo por um computador, onde você escuta suas digitais, mas que não oferece praticidade.

De uma forma bem mais lenta, é verdade, mas as coisas também evoluíam antes da internet. A fita virgem, por exemplo, é avó das playlists no celular. Bastava ter um rádio/toca-fitas, deixar ela no jeito e ligar na sua emissora favorita. Na hora que sua música começasse era só apertar “play REC” e torcer para não aparecer nenhuma vinheta no meio.

A diferença nessas últimas décadas é que a internet acelerou o processo. Até concordo que o mundo instantâneo nos tirou o prazer da expectativa e nos deixou mal-acostumados. Mas não há problema algum na evolução tecnológica. É questão de se adaptar.

O problema não está no que a tecnologia nos ofereceu, mas no que nós fizemos com esse poder. Com a internet vieram as redes sociais, a possibilidade de se conectar com gente do mundo inteiro. Fantástico! Mas foi a mesma interatividade que evidenciou a cultura do ódio, que não é de hoje, mas ganha força no bombardeio de intolerância, racismo e preconceito que se vê. Crimes escondidos covardemente debaixo da visão distorcida do que é liberdade de expressão.

Felizmente, essa não é uma batalha perdida. Arnaldo Antunes resumiu isso numa entrevista recente ao site “Tenho Mais Discos Que Amigos!” ao dizer que “não se vence a cultura do ódio sem cultivar coisas positivas.”

Por mais sombrio que pareça, o mundo instantâneo pode ser melhor. Acredite. E não há nada mais démodé que não viver o presente, mesmo que você queira pôr Rita Pavone no ringtone do seu celular, como canta em um de seus tantos sucessos o próprio Arnaldo, o mais novo sessentão da praça (completos no último dia 2).

Arnaldo Antunes, aliás, é um exemplo de artista completo que se reinventa a cada dia e se mantém à frente de todos de sua geração. Já esteve no lado A da minha cassete e segue embalando meus dias na playlist do celular. Sempre passando seu recado.

O autor é jornalista, colabora com Opinião.

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