OS CÚMPLICES – RANIER BRAGON – FOLHA

Os cúmplices

É preciso parar de tratar Bolsonaro como se ele fosse apenas um moleque travesso

Perplexos, políticos não sabem como lidar com Jair Bolsonaro. Apelo ao bom senso, de nunca adiantou. Impeachment ainda não tem força para decolar, avaliam. Ignorá-lo? Mandetta está aí para provar que não dá. Sobram as notas de repúdio que, feitas por quem parece estar pisando em ovos, já merecem todas elas uma nota de repúdio.

Como agir? Ficar como os engravatados da brilhante charge de João Montanaro, a refletir sobre o limite do tolerável até que nenhum mais haja?

Um bom começo poderia ser parar de tratar o sr. Jair Messias Bolsonaro, 65 anos, cinco filhos, mais de 30 anos de velha política nas costas, como um mero moleque travesso.

O método é o mesmo. Avanço, choque, recuo tático. Num dia, ele trepa numa caçamba para estimular ato pró-ditadura de um bando de delinquentes idiotizados. No outro, dá uma amenizada, por assim dizer.

Ufa, suspiram as polianas. Suspiram também seres rastejantes no centrão, suspira Paulo Guedes —essa pessoa que parece habitar a Disneylândia—, suspiram os militares, que emprestam honorabilidade ao moleque travesso. Suspira até Sergio Moro, que se escondeu durante todo o domingo atrás do Fuminho, o traficante, e ainda levou bronca do filhote do presidente —Carlos Bolsonaro cobrou defesa pública do pai sem nominar de quem cobrava, mas tirem suas conclusões.

E nessa toada os limites vão caindo feito dominó. Notem. Há alguns meses, a pornochanchada golpista seria inaceitável. O que será aceitável daqui a alguns meses?

Inglaterra e França não tinham nem de longe certeza de vitória quando decidiram, enfim, delimitar a Hitler o “daqui você não passa”. Agiram como adultos, não moleques. A França caiu num primeiro momento, mas a história é sabida. Para quem acha clichê a comparação, penso não ser demais tirar lições de uma catástrofe que custou a vida de mais de 50 milhões de pessoas.

Não defendo que ninguém saque a pistola ao próximo limite rompido. Apenas que faça valer sua dignidade.

Ranier Bragon

Repórter especial em Brasília, está na Folha desde 1998. Foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís e editor-adjunto de Poder.

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