Os fatos e números derrubam discurso do governo sobre INPE – MIRIAM LEITÃO, O GLOBO

NO BOM DIA BRASIL

Os fatos e números derrubam discurso do governo sobre INPE

Por Míriam Leitão14/07/2020 • 10:21

O governo não tem como explicar o afastamento da diretora Lúbia Vinhas, do Inpe, na segunda-feira. Foi a pior decisão para o momento. O governo tentava convencer o mundo que havia mudado sua atitude no combate ao desmatamento. O discurso caiu por terra.

Lúbia era chefe da Coordenação-Geral da Observação da terra, responsável pelos dois sistemas que informam sobre o desmatamento. O Deter detecta desmatamento em tempo real, o Prodes consolida as informações com imagens de satélites. Lúbia havia divulgado que em junho houve uma alta de 10% do desmatamento em relação ao ano passado que já foi ruim.

Há um padrão. No ano passado o governo exonerou Ricardo Galvão, depois de divulgar números dos quais não gostou, agora da coordenadora dos indicadores. O governo não tem compromisso com a redução do desmatamento, agora resolveu quebrar os termômetros.

No lugar de Galvão assumiu em agosto do ano passado um militar. Interino. Darcton Policarpo Damião. É o mesmo que ocorre no Ministério da Saúde. Saiu um cientista e entrou um quadro de origem militar. O interino está fazendo uma reestruturação do órgão, criando, de acordo com os próprios funcionários do Inpe, uma estrutura paralela. Está sendo destruído o INPE como nós o conhecemos, e que tantos serviços prestou ao país.

Demitir uma coordenadora serve também como um cala a boca para os outros funcionários. Servidores de carreira contam de perseguições sofridas em órgãos como o Ibama, ICM-Bio e Inpe.

O ministro Paulo Guedes disse que se o Brasil errou, agora precisa de ajuda para acertar. Mas no restante da fala ele avisou que o país não iria aceitar “falsas narrativas”. Ora o que existe são os números e eles narram que o desmatamento está crescendo.

Conversei por mensagem com o economista José Alexandre Scheinkman, que foi professor em Chicago, Princeton e agora é professor de Columbia. Ele me explicou como funciona o efeito para o Brasil de tudo o que está acontecendo. Os fundos de pensão que pediram explicações ao governo têm que respeitar as regras definidas pelos seus cotistas. Um deles, por exemplo, o Calpers administra a previdência dos servidores do estado da Califórnia. É um dos maiores do mundo. Se ele não quiser mais investir no Brasil não comprará papeis de nenhuma empresa brasileira ou emissor brasileiro, inclusive o Tesouro. E eles também financiam os fundos de investimento. Vai numa sequência. Ao fim o dinheiro fica mais caro par qualquer título brasileiro público ou privado. Na outra ponta também haverá problemas. A atuação do governo no Meio Ambiente vai afastar os clientes de empresas brasileiras. Os compradores de produtos brasileiros vão buscar outros concorrentes.

O governo está facilitando a vida dos nossos competidores e atrapalhando a captação de empresas brasileiras lá fora. Para um país que desmata como o Brasil, vai ter corte de recursos ou então ficará mais caro captar. A discussão passou para outro patamar. O risco é enorme. 

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