Os ignorantes não reconhecem o valor da reciprocidade – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA

Os ignorantes não reconhecem o valor da reciprocidade
Muitos conflitos sociais e familiares decorrem da falta de reconhecimento das reais necessidades do outro

Desde o meu livro “A Outra”, de 1990, tenho me dedicado a pesquisar as expectativas e os conflitos dentro dos casamentos e das famílias brasileiras. Trinta anos depois, as dificuldades de convivência se multiplicaram, mas uma queixa continua presente: a de falta de reciprocidade e de reconhecimento.

O caso de um professor de 66 anos é interessante para pensar sobre o desequilíbrio entre “dar, receber e retribuir”.

“Além da pensão da ex-mulher e das mesadas dos três filhos, ajudo financeiramente meu pai e dois irmãos. Agora mais ainda, pois sem o meu dinheiro eles não conseguiriam sobreviver na pandemia. O pior é que eles não demonstram a menor gratidão pelo meu sacrifício. Acham natural que eu trabalhe como um condenado para sustentar um bando de parasitas.”

Ele disse que o seu “sacrifício” é ignorado pela família.

“Apesar do esforço que eu faço para agradar a todos, nunca é o suficiente. Eu me sinto impotente, um fracasso como homem. Meu filho mais velho não trabalha, não faz porra nenhuma, só me critica e reclama de tudo. Cansei de ouvir: ‘Não pedi para nascer, você não faz nada além da sua obrigação, você é um bosta de pai’”.

Reciprocidade, de acordo com uma psicóloga de 52 anos, não é dar ao outro a mesma coisa que você recebe, mas dar e receber o que é mais vital e necessário para cada um.

“Meu marido está desempregado, e eu pago as despesas da casa. Não me sinto explorada com essa situação, pois ele me dá tudo o que eu mais preciso. Trabalho muito e pago todas as contas, mas ele cozinha, limpa a casa, faz as compras, resolve os problemas domésticos. Meu pai fala que eu sou o homem da casa. Diz que o meu marido é uma merda de homem, que ele só faz cagada e é brocha!”.

Para ela, pessoas ignorantes e preconceituosas não conseguem enxergar que a troca amorosa é dar ao outro o que ele mais precisa, e saber receber o que o outro tem de melhor para dar.

“Faço tudo para o meu marido se sentir valorizado como homem, e ele faz tudo para provar que sou uma mulher especial. Se todos tivessem generosidade, escuta e empatia para compreender o que o outro realmente necessita, as relações seriam mais felizes. Não preciso do dinheiro de nenhum homem, mas quero ter um companheiro de verdade. Quem disse que dinheiro é mais importante do que carinho, cuidado e compreensão?”.

Mirian Goldenberg
Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de “A Bela Velhice”.

Os ignorantes não reconhecem o valor da reciprocidade – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA
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