Os militares vão segurar Bolsonaro? – ROGERIO GENTILE, FOLHA

Impeachment depende de três fatores: crise econômica, insatisfação popular e base congressual frágil

Jair Bolsonaro caminha em direção ao abismo. Quase todos os dias, dá um passo na trilha do impeachment. Como não existe bola de cristal, é impossível saber se ele será destituído, mas cada vez mais esse parece ser o desfecho provável da sua trajetória no ambiente normal da democracia.

Como mostra a história do Brasil e de outros países, impeachment depende de três fatores principais: crise econômica, insatisfação popular e base congressual frágil.

A economia, que já não vinha bem, desabou com a pandemia do coronavírus e com a instabilidade política que Bolsonaro cultiva com tanto afinco. O presidente é um acumulador de brigas. Ataca o Judiciário, o Congresso e os governadores, tudo ao mesmo tempo.

Internamente, no ministério, as confusões também se avolumam. Em uma semana, demite Luiz Henrique Mandetta, o ministro responsável pelo enfrentamento da pandemia. Na outra, o alvo é Sérgio Moro, herói nacional para boa parte da população, que deixa o governo atirando. Na sequência, saem Nelson Teich, o novo ministro da Saúde, após 28 dias no cargo, e Regina Duarte, que, fritada pelo presidente, deixa a Secretaria da Cultura e recebe um posto de consolação na Cinemateca. Tudo isso em menos de 40 dias.

Além das brigas intermináveis, Bolsonaro, que tampouco tem uma base política consolidada no Congresso, toma atitudes que ferem a sensibilidade de quem está assustado com a pandemia, de quem perdeu parentes e amigos nesta tragédia.

Faz aula de tiro e passeia de moto aquática enquanto as pessoas estão confinadas em casa. Diz “e daí?” ao ser questionado sobre o recorde de mortes. E sugere Tubaína para quem reclama do uso da cloroquina, remédio sem comprovação científica para o tratamento daCovid-19. Com isso, dia após dia, vai minando ainda mais sua popularidade.

O presidente age assim pois essa é a sua natureza beligerante e inconsequente, como mostra sua trajetória no Congresso, mas também porque confia que os militares vão segurá-lo no cargo, sabe-se lá como. Mas será que vão mesmo?

Bolsonaro, lá atrás, cometeu o erro estratégico de escolher um general para ser o seu vice. Achava que isso dificultaria um eventual impeachment, pois o Congresso, com o trauma da ditadura, não iria querer devolver o poder aos militares. Dezenove meses depois da eleição, ninguém demonstra se preocupar com isso.

Por mais leal que seja um vice, ele é aquele que tem a expectativa íntima de assumir. E, se houver impeachment, o general Mourão e os militares vão querer passar por um novo desgaste histórico e enfrentar a crítica internacional para manter à força o capitão amalucado no cargo? Ou vão preferir retomar o poder pelas vias democráticas e com o apoio da sociedade civil? A lógica ainda é uma das forças motrizes da política.

Rogério Gentile

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha, editor de Cotidiano e da coluna Painel e repórter especial.

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