Os tipos de ignorância na Covid – ATILA IAMARINO, FOLHA


A forma ativa, na qual se gasta energia para se manter a ignorância, é a mais preocupante

Nossa ignorância a respeito da Covid se comporta um pouco como a pandemia. Diminuindo aqui e ali, mas em alguns pontos vai bem, obrigado, e crescendo. Estudar ignorância é traçar uma fronteira clara: a partir daqui, não sabemos mais. O que transforma o que não sabemos que não sabemos no que sabemos que não sabemos, parafraseando Donald Rumsfeld.

Temos a ignorância nativa, o que não se sabe porque é desconhecido. Quanto tempo quem se curou continua protegido? Quão sazonal é o vírus? Teremos um descanso no verão? De onde veio o vírus? Essa ignorância estamos resolvendo com a ciência. Já temos 4 vacinas candidatas em teste, prontas para responder algo fundamental: será que funcionam?

Temos a ignorância passiva. O que deixamos de saber porque não há tempo para se saber tudo. Pesquisadores de diversas áreas deixaram de lado sua vocação tradicional e suas áreas de estudo para entenderem a pandemia que parou o mundo. E provavelmente muitos não voltarão ao que faziam antes.

Mas tem um tipo de ignorância mais preocupante. A ignorância ativa. Aquela que se gasta energia e tempo para se criar e se manter. Por vezes, é um esforço desejável. As empresas que desenvolvem e testam as vacinas candidatas atuais mantém a formulação do que testam e o andamento dos testes sigiloso, por questões de mercado, de propriedade intelectual e de privacidade dos voluntários. Mesmo assim, algumas foram invadidas por hackers que estavam justamente atrás dessa informação valiosa.

Outras vezes é um esforço também ativo, mas sigiloso, feito para a manter o público propositalmente ignorante sobre algo. Um esforço que vai desde a tentativa de mascarar dados, ocultar números, até atitudes mais insidiosas como dificultar a testagem para Covid. E como a realidade da pandemia tem se tornando cada vez mais difícil de ignorar, pelo menos em terras brasileiras, esse esforço para manter as pessoas ignorantes fica cada vez mais agressivo.

É aqui que entra a polarização da pandemia e a disputa de identidades. Humanos são animais sociais. E se tem uma forma de nos fazer ignorar a realidade, é condicionar nossa presença em um grupo a isso. Quer fazer parte do seu grupo querido, onde estão suas pessoas queridas? Aqui todos acreditam nesse pacote de ideias. Não se pode questionar nenhuma delas. Eles fazem do jeito deles, nós fazemos do nosso e não tem mistura. Quem fez algo errado? Foi alguém do outro grupo? Então é abominável. Foi alguém do seu grupo? Nem é aquilo tudo. Foi o líder? Com certeza teve motivos nobres para fazer o que fez.

É assim que se nega evolução. É assim que se nega o aquecimento global. É assim que se empurram tratamentos que não funcionam contra a Covid.

Mas com vacinas, não dá para se ter uma disputa de times. Não é uma questão de “quem gosta toma vacina, quem não gosta toma cloroquina”. Não se vacinar é como dirigir bêbado, coloca a sua vida e a vida dos outros em risco. É uma atitude muito mais coletiva do que parece.

Nem todos podem ser vacinados, como transplantados e outros imunocomprometidos. E nem todos que tomam a vacina se imunizam. Então, para se garantir que a população esteja protegida, quanto mais contagiosa a doença e quanto menor a eficiência de uma vacina, mais pessoas precisam ser vacinadas.

Para parar a Covid e retomar nossa vida, provavelmente vamos precisar dos dois. Manter distanciamento e máscaras para diminuir seu contágio. E vacinar uma grande proporção da população, provavelmente mais de 70%, antes de quem está em risco poder circular sem medo.

Em se tratando de ignorância, vacinas são como a democracia, a ignorância alheia também me põe em risco.

Atila Iamarino
Doutor em ciências pela USP, fez pesquisa na Universidade de Yale. É divulgador científico no YouTube em seu canal pessoal e no Nerdologia

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