Outra vez se espera que Bolsonaro comporte-se como o seu oposto – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM

Pano de fundo do Brasil para a Cúpula do Clima

Por Ricardo Noblat Atualizado em 21 abr 2021, 03h34 – Publicado em 21 abr 2021, 08h00

Salles ridicularizando índios
 Rede social/Reprodução

O pior índice de desmatamento da Amazônia nos últimos 10 anos foi alcançado em março último. Derrubou-se 810 quilômetros quadrados de floresta, área maior do que a da cidade de Goiânia, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia

A devastação triplicou em comparação com março de 2020. Cresceu 59% entre agosto de 2020 e março de 2021 em relação ao período de agosto de 2019 a março do ano passado. Apenas isso. 2020 foi também o ano em que queimou parte do Pantanal.

Em carta divulgada ontem, 400 servidores do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) anunciaram a suspensão de suas atividades de fiscalização graças a uma decisão do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Boneco de ventríloquo de Bolsonaro, o que Salles aprontou dessa vez? Mudou o rito para a aplicação de multas ambientais. Segundo os servidores, a nova regra fixada por Salles no início do mês “inviabiliza” as ações de combate ao desmatamento na Amazônia.

“Registramos que, no momento, os meios necessários para o estrito cumprimento do nosso trabalho não estão disponíveis e que todo o processo de fiscalização e apuração de infrações ambientais encontra-se comprometido”, diz um trecho da carta.

Na semana passada, Salles foi alvo de uma notícia-crime da Polícia Federal do Amazonas e passou a ser investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por supostamente atrapalhar uma investigação sobre a maior apreensão de madeireiras ilegais.

Mais alguma coisa? Sim. Nas últimas 24 horas, Salles ridicularizou no Instagram indígenas que utilizam telefones celulares. Divulgou três fotos deles carregando celulares. A primeira imagem tem como texto: “Recebemos a visita da tribo do iPhone”.

Poderia haver no caso do Brasil pano de fundo mais adequado para a reunião de cúpula sobre o meio ambiente convocada pelo presidente Joe Biden? A sorte de Bolsonaro é que a reunião será virtual. A ele caberá ler um texto redigido por assessores.

Os demais governos sabem que falta vontade política a Bolsonaro para combater a degradação do meio ambiente. Se não faltasse haveria estratégia e meios poderosos para isso. Assim como falta vontade política para enfrentar a pandemia da Covid.

É o que explica, por exemplo, Bolsonaro jamais ter defendido medidas de isolamento social, e sabotado as que existem por conta de governadores e prefeitos, e a compra de vacinas. Sobra-lhe vontade política para blindar os filhos de denúncias de corrupção.

Como acreditar que ele cumprirá os acordos que venham a ser firmados durante a reunião de cúpula? Ele teria de fazer tudo ao contrário do que fez até aqui. É como imaginar que Bolsonaro, um dia, deixará de elogiar a ditadura de 64 e a tortura.

Esqueçam!

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