País do futebol está virando o país da cera – RENATA MENDONÇA, FOLHA

País do futebol está virando o país da cera
Saber o momento de esfriar o jogo faz parte, mas não tantas paradas a ponto de não deixar a bola rolar

Acontece em 99% dos jogos aqui. Não é exclusividade de nenhum time. Tem campeão da Libertadores que faz, assim como tem time da Série D fazendo. E é claro que isso acontece em qualquer lugar do mundo, até com o time do Pep Guardiola. Mas, por aqui, já faz um tempo que estão exagerando na dose.

O Brasil sempre foi reconhecido por ser o “país do futebol”, o lugar onde o talento com a bola nos pés brota do chão. Mas imagino que hoje em dia, para quem não conhece e começa a acompanhar o Campeonato Brasileiro sem sobreaviso, o Brasil tem virado o país da cera. Não aquela que as abelhas produzem, mas a que os jogadores insistem em protagonizar dentro de campo toda santa rodada.

Nem sempre tem hora marcada para começar. Às vezes é faltando cinco minutos para acabar o jogo – e aí já é até mais compreensível. Às vezes, o gatilho é o gol do time de menor poderio financeiro, que a partir disso passa a querer que o jogo acabe para concretizar o resultado – e faz absolutamente tudo para isso acontecer, parando a partida com simulações, pedidos de atendimento e usando as inúmeras estratégias que só a malandragem brasileira foi capaz de conceber.


E só para deixar claro: acho que seria hipócrita dizer aqui que a cera não faz parte do jogo. É importante, sim, perceber que há momentos do jogo em que uma pequena pausa pode ajudar. O problema não é parar o jogo, o problema é forçar tantas paradas a ponto de não deixar o jogo rolar.

É como diz aquela frase: “tudo em excesso faz mal”. E já faz tempo que o futebol brasileiro exagera nas simulações e na cera durante os jogos. Algumas cenas ficam até marcadas, seja para o bem ou para o mal. Aconteceu nas duas últimas finais de Libertadores – coincidência ou não, duas finais 100% brasileiras.

Na edição de 2020, nos acréscimos da partida entre Palmeiras e Santos, o então técnico do time alvinegro, Cuca, tentou retardar a cobrança de lateral de Marcos Rocha ao segurar a bola e impedir a reposição rápida – ele acabou expulso, inclusive, e foi ver o jogo da arquibancada. Minutos depois, viu seu adversário fazer o gol do título com Breno Lopes.

Em 2021, o Palmeiras já vencia o Flamengo por 2 a 1 na prorrogação quando Deyverson fingiu ter recebido um golpe nas costas do próprio juiz da partida e caiu simulando dor. “Foi para ganhar tempo”, ele explicou depois, dizendo que achava ter recebido um toque de algum jogador do Flamengo, e não do árbitro.

Se fossem situações exclusivas de finais ou dos últimos minutos de um jogo mata-mata, até daria para tentar entender. Mas isso é constante. No jogo entre Goiás e Palmeiras no último sábado (16), o time goiano abriu o placar aos 13 do segundo tempo e, dali em diante, jogadores começaram a cair com frequência. Um deles ficou um tempo no chão pedindo atendimento médico, veio a maca e, no segundo em que a maca saiu do campo, ele pulou dela para voltar ao jogo e atrapalhar uma cobrança de lateral do adversário. No Santos x Coritiba, o pênalti dado para o Coxa veio de uma simulação bizarra.

Eu poderia citar aqui dezenas de exemplos de todos os times em todas as rodadas do Campeonato Brasileiro. Tem jogo que passa mais tempo com a bola parada do que com ela rolando, diante de tantas simulações, cera, reclamações com a arbitragem e demora para a cobrança de uma simples falta.

Para aumentar o tempo de bola rolando por aqui, é preciso um movimento de colaboração mútua. Dos atletas diminuírem as simulações, dos árbitros punirem essas atitudes assim que elas começarem, das comissões técnicas para não incentivarem esse tipo de comportamento, da imprensa para também não naturalizar o excesso de cera como “parte do jogo”.

Pelo fim da Escola Wolf Maya de jogadores brasileiros.

País do futebol está virando o país da cera – RENATA MENDONÇA, FOLHA
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