PAÍS IGNORA EDUCAÇÃO PÚBLICA – DEMETRIO MAGNOLI – FOLHA

Pela esquerda ou pela direita, país não dá a mínima para a educação pública

Área foi catalogada oficialmente como a mais supérflua das ‘atividades não essenciais’

O plano de Doria saiu há 18 dias, com cinco colunas descrevendo as fases de reabertura de São Paulo e 15 linhas elencando previsões de reativação de cada atividade.

Lá no fim, na linha educação, um retângulo vazio indica a ausência de previsão de retomada de aulas presenciais. Escolas, só depois de indústrias, escritórios, shoppings, igrejas, parques, restaurantes, bares, passeatas e futebol. A história se repete, Brasil afora. A educação foi catalogada oficialmente como a mais supérflua das “atividades não essenciais”. Weintraub é a cara da elite governante nacional.

De costas para a ciência e a experiência, o Brasil revela sua alma. Pela esquerda ou peladireita, não damos a mínima para a educação pública.

A esquerda enxerga a escola pelos óculos do sindicalismo (remunerar professores), enquanto a direita a vê pelos olhos do mercado (fornecer mão de obra).

Boatos sugerem que São Paulo reativará a rede pública em agosto, mas na forma de piada macabra, com um dia de aula semanal por turma. Inexiste escândalo. Na imprensa, formadores de opinião ignoram o assunto –e quando, raramente, circulam ao seu redor, é para fingir que acreditam na lenda do ensino a distância nas escolas públicas.

A prioridade europeia de reinício das aulas não se deve à merenda e apenas parcialmente ao fardo imposto às famílias trabalhadoras de cuidar o dia todo de crianças sem aulas. Por lá, a urgência derivou do reconhecimento dos direitos dos alunos, conceito desconhecido entre nós.

Se os professores continuam recebendo e os empregadores só precisam de um contingente limitado de profissionais qualificados, quem se importa com o fechamento das escolas?

Os educadores sabem que a falta prolongada de escola prejudica, para sempre, o desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais.

As crianças e adolescentes sem aulas ao longo de um semestre inteiro estão sofrendo uma amputação intelectual oculta, que as acompanhará pelo resto da vida. Claro, isso com exceção dos filhos da elite, que dispõem de livros em casa, ensino a distância razoável e aulas particulares de reforço. Ah, sim: os filhos dos governantes pertencem ao grupo da exceção.

A cegueira de classe manifesta-se como epidemiologia militante. “Deus! Você arriscaria uma única vida só por causa de artigos científicos e das experiências de 22 países?”

Vidas relevantes, vidas descartáveis. Os fundamentalistas da saúde simulam não saber que, nas periferias urbanas, os mais jovens jamais praticaram o caro esporte da quarentena. Eles não aventam a hipótese de que, nas escolas, os alunos venham a receber orientações sanitárias superiores às vigentes nas ruas.

DEMETRIO MAGNOLI

Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP.

Mulher passa por escola gerida pela ONU que foi fechada por causa da pandemia do coronavírus, em Khan Younis, na Faixa de Gaza
Pátio da escola primária Jatkasaari, em Helsinque, após governo finlandês decretar o fechamento de todas as escolas públicas
Quadro negro com informações sobre o fechamento de uma escola durante a pandemia do coronavírus em Abidjã, na Costa do Marfim
Voluntário da Cruz Vermelha desinfeta sala de aula de escola que foi fechada por causa do coronavírus em Jacarta, na Indonésia
Escola vazia em Nova Orleans, Louisiana, nos Estados Unidos
Pátio da escola primária Francis Scott Key, em San Francisco, na Califórnia. Governos estaduais nos EUA têm tomado a iniciativa no combate à pandemia do coronavírus; vários já decretaram o fechamento de suas escolas
Escola fechada em Tachkent, capital do Uzbequistão
Portão de entrada da Escola Técnica de Abidjã, na Costa do Marfim; país decretou suspensão de aulas até o fim de abril
Escola fechada em Lisboa, Portugal
Comércio de rua está autorizado a funcionar das 11h até às 15h.
Clientes e lojistas devem respeitar regras de higiene estritas.
Clientes formam fila para entrar em loja na Ladeira Porto Geral, na região da 25 de Março. Apenas 20% da capacidade de pessoas é permitida nas lojas.
Movimentação no metrô durante o horário de reabertura do comércio popular.
Metrô durante o horário de reabertura do comércio de rua, que funcionará entre 11h e 15h.
Transeuntes usam máscaras na rua João Cachoeira, no Itaim Bibi, no dia de reabertura gradual de comércio.
A rua Teodoro Sampaio movimentada durante reabertura das lojas.
Lojas de rua reabrem com medidas restritivas na rua Teodoro Sampaio.
Comércio também reabriu na rua Oscar Freire, na zona oeste da cidade.
Marcas de luxo da rua Oscar Freire puderam reabrir suas lojas nesta quarta-feira (10).
Ônibus do Terminal Bandeira até o Terminal Capelinha, viaja com passageiros em pé no primeiro dia de reabertura do comércio.
Vista geral da região da 25 de Março neste primeiro dia de reabertura.
Consumidores aguardam em fila (devido a limitação de numero de pessoas nas lojas) e passam por medição de temperatura além de receber alcool gel nas mãos para entrar na loja Niazi Chohfi na rua  25 de Março.
Consumidores e vendedores ambulantes circulam na Ladeira Porto Geral com rua 25 de Março no primeiro dia de reabertura gradual do comércio.
Clientes recebem solucão desinfetante no solado de seus calçados para entrar na loja Suprema Bijuterias na rua 25 de Março.
Consumidores e vendedores ambulantes circulam e aguardam para entrar nas lojas, na região da 25 de Março.
Trânsito intenso na avenida 23 de Maio, em São Paulo, no primeiro dia de abertura dos comércios.

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