Palmeiras não é banco e precisa conquistar títulos, diz Leila Pereira – ENTREVISTA Á FOLHA SP

Palmeiras não é banco e precisa conquistar títulos, diz Leila Pereira
Presidente promete não vender jogadores e reconhece que o futebol exerce fascínio em banqueiros

SÃO PAULO
“Leila, liga no Palmeiras e vê quanto foi o jogo.”

Estagiária do departamento de esportes da TV Manchete, Leila Pereira, 19, atendia ao pedido do marido, o banqueiro José Roberto Lamacchia. No começo da década de 1980, pré-internet, ela telefonava para o clube para saber qual havia sido o placar.

Quase quatro décadas mais tarde, ela é a primeira presidente mulher da história da agremiação. Eleita em novembro do ano passado como única candidata, tornou-se nome conhecido no futebol na esteira do patrocínio da Crefisa ao Palmeiras. Parceria de cerca de R$ 120 milhões anuais e iniciada em 2015.

Leila é presidente da financeira e Lamacchia é acionista controlador.

Em entrevista à Folha, ela ri dos boatos de que na infância foi vascaína, mas reconhece ser estranha no ninho. É uma mulher de sotaque carioca, que oito anos atrás nenhum torcedor sabia quem era e hoje está no comando de um dos maiores clubes do país.

É um trabalho bem diferente para Leila Pereira. Principalmente porque, ao contrário do banco, não tem como objetivo o lucro. Diz não querer o Palmeiras com o cofre cheio de dinheiro. A meta é ganhar.

A senhora era vascaína na infância? Nunca liguei para futebol. Não tinha time. Comecei a acompanhar o Palmeiras quando comecei a namorar meu marido, que sempre foi muito palmeirense. O amor [pelo Palmeiras] foi acontecendo e ficou muito forte. Aos poucos fiquei mais envolvida por causa do meu marido palmeirense, das nossas marcas estampando o uniforme… Eu não tinha dimensão da força do futebol para uma marca.

O que uma banqueira leva de vantagem em administrar um clube de futebol como o Palmeiras? O presidente do conselho [Seraphim del Grande] me falou que uma das qualidades que eu tenho é a facilidade para dizer não. Tenho mesmo e é preciso. E eu falo “não” sem problema nenhum.

O torcedor pode achar que, por a Crefisa ser um banco, tem o cheque aberto para financiar contratações para o Palmeiras. Torcedor cobra muito contratações. Isso é definição do nosso técnico. A Crefisa é um banco. O Palmeiras, não. O Palmeiras precisa de investimento para contratar bons jogadores. Por exemplo: eu não vendo atleta que está jogando bem.

As pessoas perguntam como vou fazer para segurar tal jogador. Simples, ele tem contrato e é para ser cumprido. Se pagar a multa, tudo bem. Caso contrário, não vendo. O Palmeiras não é para estar com o caixa abarrotado de dinheiro. Os recursos têm de existir para investir no futebol. O Palmeiras precisa conquistar títulos e só se conquistam títulos com os melhores.

Desde que a senhora assumiu o cargo, o Palmeiras conquistou a Recopa Sul-Americana e o Paulista, mas houve críticas quanto à ausência de um camisa 9 e demissões feitas no clube. Acha que as críticas aconteceram por ser mulher? Se tivesse sentido preconceito, não teria sido eleita com o número avassalador de votos que recebi. Seria hipócrita dizer isso. Acho que tem essa coisa de eu ser mulher e ser carioca com sotaque carioca como presidente de um dos maiores clubes do mundo. Isso é uma vitória para todas as mulheres. Nunca fiz campanha feminista, mas é importante para as mulheres.

Há o caso de José Berenguer, da XP, que estava no Santos, os Moreira Salles envolvidos no Botafogo. A imprevisibilidade e a adrenalina do futebol exercem um fascínio sobre banqueiros? Exerce, sim. Mas vou te falar uma coisa, não sei se é porque sou fria, objetiva, mas eu tenho muito os pés no chão. No Mundial, a gente esteve a um passo da conquista do nosso bicampeonato do mundo. Perguntaram se eu estava nervosa e respondi que não. O trabalho já havia sido árduo para chegar até ali. Futebol pode acontecer qualquer coisa. Você tem de estar preparado.

O que esse cargo traz é muita responsabilidade. Eu não posso decepcionar nossos milhões de torcedores. Eu não entro em campo para fazer mais ou menos. Eu sou uma boa camisa 9 e não perco gols.

Mas como é para alguém acostumada ao mercado financeiro, a números, a racionalidade, estar em um ambiente em que se a bola bate na trave e entra, todo mundo é gênio. Mas se bate na trave e sai, todo mundo é idiota? Não é fácil. Mas se a bola bate na trave e sai, todo mundo pode ver o esforço feito. As pessoas sabem que houve luta. O futebol é igual à vida. É ao vivo e a cores. Não tem ensaio. Às vezes, a torcida pode não entender. Mas eu entendo. Se bater na trave e sair, vamos fazer o melhor e na próxima a gente consegue.

Já que a cobrança do momento é por um camisa 9, por que ele não foi contratado? Qualquer jogador que o Abel [Ferreira, o treinador] sugeriu, se não veio, não foi por dinheiro. Foi porque o outro time não quis vender ou porque o atleta estava na Europa e não quis vir.

Nós não temos o camisa 9 e fizemos quatro [no São Paulo, na final do Estadual]. Não temos camisa 9, mas olha quantos títulos [foram conquistados]. Futebol não é ciência exata. Pode ser que venha um 9 e não encaixe. Mas compreendo o nosso torcedor. Ele é o maior patrimônio do clube.

Foi discutida a ausência do Palmeiras em uma reunião promovida pela XP para falar sobre a nova liga de clubes. Qual é a sua posição sobre isso? A liga é fundamental e sou uma das maiores entusiastas. Mas a questão é os clubes se entenderem. Não adianta marcar reunião de duas ou três horas com empresas que vão arrumar investidor. Primeiro, nós precisamos formar a liga. Não vou ficar duas horas em reunião, que eu detesto, para não resolver nada.

Acredito que a liga vai sair e precisa sair. Vou fazer força para isso. O futebol brasileiro não se sustenta por muito mais tempo da forma como os clubes estão com dificuldade hoje.

Não adianta marcar reunião de duas ou três horas com empresas que vão arrumar investidor. Primeiro, nós precisamos formar a liga. Não vou ficar duas horas em reunião, que eu detesto, para não resolver nada.

Alguns clubes estão procurando o modelo de sociedade anônima após a aprovação da lei da SAF. E o Palmeiras? Eu sou contra transformar o Palmeiras em empresa. É um clube muito grande, entendeu? Eu acho que você pode deixá-lo como uma associação, mas sendo administrado profissionalmente. Mas não só no discurso. Na prática, como eu estou fazendo.

​Além do contrato de patrocínio, a Crefisa fez empréstimos ao Palmeiras para a contratação de reforços. Quanto o clube deve para a empresa e como isso será pago? A dívida está entre R$ 120 milhões e R$ 130 milhões. O pagamento seria feito na venda dos jogadores. Se o atleta sair no final do contrato, o Palmeiras tem dois anos para pagar. É isso.

O futebol brasileiro não se sustenta por muito mais tempo da forma como os clubes estão com dificuldade hoje.

Se a senhora se reeleger no fim de 2024, terá de renegociar, como presidente do Palmeiras, a renovação de contrato de patrocínio com a empresa em que é presidente. Como isso será possível? Não tem problema nenhum. Tenho vários diretores aqui e eles vão fazer uma proposta para o Palmeiras. Eu submeto isso e quem vai decidir é o COF (Conselho de Orientação e Fiscalização) e posso submeter ao conselho deliberativo. Eles é quem vão decidir. Eu nem voto nesse dia. Vou me abster. Então, é tudo muito transparente.

Para a senhora não há conflito de interesse? Se tiver algum assunto referente ao patrocínio, quem vai deliberar é o conselho do Palmeiras, não serei eu. Ouvi falar muito sobre conflito de interesse, mas até agora ninguém veio me dizer diretamente nada sobre isso.

A senhora ficou conhecida entre os torcedores do Palmeiras como “tia Leila”. Como reage a esse apelido?​ Para mim, é incrível andar na rua e ter o carinho das pessoas. Às vezes, nem são palmeirenses. Eu adoro o “tia Leila”. É carinhoso. É lindo.

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