Para quem trabalha tentando explicar a ciência ao público, chegou afinal o Dia de São Crispim – REINALDO JOSÉ LOPES, FOLHA

Custo da incapacidade de usar evidências científicas para guiar políticas nunca foi tão alto

Diz a tradição cristã que, em 286 d.C., dois irmãos romanos chamados Crispinus e Crispinianus foram degolados a mando do imperador Diocleciano como punição pelo crime de terem se convertido à fé em Jesus. A dupla de mártires passou a ser honrada pela Igreja Católica no dia 25 de outubro, o dia de São Crispim.

Os dois se tornaram padroeiros dos sapateiros, mas podiam muito bem ter apadrinhado também os soldados, porque não faltam batalhas históricas nesse dia: a queda da Lisboa muçulmana nas mãos dos portugueses em 1147, a célebre Carga da Brigada Ligeira britânica na Guerra da Crimeia em 1854 —e a mais famosa de todas, a batalha de Agincourt, graças ao engenho e à arte do dramaturgo William Shakespeare na peça “Henrique 5º”.

Em 1415, o rei inglês que dá nome à peça liderou menos de 10 mil homens contra forças francesas que talvez tivessem mais que o dobro de combatentes, conquistando uma vitória que Shakespeare louvou como a dos “poucos e felizes, nosso bando de irmãos”.

Imagem medieval da batalha de Agincourt
Imagem medieval da batalha de Agincourt – Wikimedia Commons

Dei essa volta tremenda para dizer o seguinte, gentil leitor: para quem vive de tentar explicar a ciência a um público amplo, este é o Dia de São Crispim. Nas próximas semanas e meses, nenhum de nós pode se dar ao luxo de fraquejar. O custo da incapacidade de promover uma discussão racional e bem informada sobre a importância de usar as evidências científicas para guiar políticas em escala nacional e internacional nunca foi tão alto.

Se existe algum motivo para otimismo diante dos dias duríssimos (e não se engane: eles hão de ser duros) que teremos pela frente, ela reside não apenas na coragem dos profissionais de saúde que, neste exato momento, estão sendo privados até do contato com suas famílias para salvar vidas, nem só nos cientistas que tentam entender a ameaça do novo coronavírus, mas também na atividade frenética de quem busca explicar o significado de tudo isso com base em dados, e não em preconceitos políticos ou vozes da própria cabeça.

Sou testemunha, em primeiro lugar, da dedicação dos meus colegas nesta Folha, editores e repórteres das áreas de ciência e saúde, os quais, muito provavelmente, nunca escreveram tanto, nem leram tantos artigos científicos, nem precisaram se debruçar com tanta minúcia para explicar quanto tempo um vírus resiste nas mais variadas superfícies ou de que serve, afinal, uma máscara de proteção feita com pano de chão.

Esse, claro, é só o nosso trabalho —ainda que o estejamos desempenhando com mais foco e transpiração do que o habitual. Mas acompanho de perto também a abnegação e o fôlego dos membros de iniciativas como o Science Vlogs Brasil, um grupo de canais de divulgação científica no YouTube que já atinge milhões de pessoas país afora. Equilibrando carreiras acadêmicas e trabalho de comunicador, com um domínio invejável da linguagem das mídias sociais que já transformou alguns deles em astros, eles têm conseguido alcançar pessoas que a mídia tradicional frequentemente não é capaz de tocar. Se a frase “achatar a curva” se tornou quase um meme, agradeça, em grande parte, ao trabalho deles.

A batalha está só começando, mas todos nós estamos dispostos a continuar de espada desembainhada pelo tempo que for preciso. E os cavalheiros de Brasília, que agora estão em suas camas, ainda hão de considerar inexistente sua hombridade quando ouvirem falar aqueles que lutaram conosco no Dia de São Crispim.

Reinaldo José Lopes

Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de “1499: O Brasil Antes de Cabral”.

Para quem trabalha tentando explicar a ciência ao público, chegou afinal o Dia de São Crispim – REINALDO JOSÉ LOPES, FOLHA
Rolar para o topo