PARA SE RECOMPOR, MORO TERÁ QUE AFUNDAR BOLSONARO – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS NO UOL

O embate entre Sergio Moro e Jair Bolsonaro mudará de patamar. O vale-tudo inaugurado nas redes sociais no final de semana será transferido para as páginas de um inquérito formal, a ser aberto nesta segunda-feira pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal. Moro será chamado a depor.

Para se recompor em cena, o ex-ministro da Justiça terá de afundar Bolsonaro, exibindo provas de que o presidente agiu para submeter a Polícia Federal aos seus interesses particulares. Auxiliares de Bolsonaro receiam que Moro, um metódico ex-juiz, tenha colecionado evidências.

Levado à alça de mira por Bolsonaro e pela máquina bolsonarista de moer reputações nas redes sociais, Moro parafraseou o presidente neste domingo. Adaptando o bordão “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, escreveu no Twitter: “Verdade acima de tudo, fazer a coisa certa acima de todos”.

Moro considera-se alvo de “uma campanha de fake news”. Declara-se despreocupado. “Já passei por isso antes e depois da Lava Jato”, anotou. Engano. As coisas agora são bem diferentes.

Como juiz, aferrado à máxima segundo a qual não se faz omelete sem quebrar os ovos, Moro tomou gosto pelo crec-crec. Como ministro, demorou a se dar conta de que estava ao lado de um presidente que não queria senão abafar o barulhinho das cascas se quebrando.

Se tivesse evocado o versículo multiuso que Bolsonaro extraiu do Evangelho de João —”Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará—, Moro talvez concluísse que enxergou o logro em que havia se metido com atraso de um ano e quatro meses.

Moro administrou seu desembarque como se desejasse compensar sua lerdeza. Na forma, converteu o ato administrativo do pedido de demissão num espetáculo político. No conteúdo, exonerou-se num timbre de navio que abandona os ratos. Saiu atirando, como se diz.

O problema é que Moro falou muito depois de ter calado demais. Antes mesmo de assumir o ministério, ainda na fase de transição de governo, em dezembro de 2018, as manchetes já forneciam material para manifestações de Moro.

Foi nessa época que o caso da rachadinha ganhou o noticiário. Até onde a vista alcançava, não havia no esquema de apropriação ilegal dos contracheques de servidores do gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro nenhum bom exemplo. Mas o episódio era um ótimo aviso.

Moro estava prestes a assumir uma pasta da Justiça turbinada com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Foi justamente esse órgão que farejou o vaivém “atípico” de R$ 1,2 milhão na conta do faz-tudo Fabrício Queiroz, gestor da rachadinha.

A futura primeira-dama Michelle Bolsonaro estava no epicentro da crise, como beneficiária de um repasse de R$ 24 mil feito por Queiroz. Os fatos intimavam Moro a exibir uma reação qualquer, nem que fosse uma cara de nojo. Mas o ex-juiz silenciou. Cometeu o pior tipo de excesso —o excesso de moderação.

Dias antes, numa entrevista, o próprio Moro fixara as balizas para o comportamento que se esperava dele. “Eu não assumiria um papel de ministro da Justiça com o risco de comprometer a minha biografia, o meu histórico”, havia declarado.

Dissera mais: “Defendo que, em caso de corrupção, se analisem as provas e se faça um juízo de consistência, porque também existem acusações infundadas, pessoas têm direito de defesa. Mas é possível analisar desde logo a robustez das provas e emitir um juízo de valor. Não é preciso esperar as cortes de Justiça proferirem o julgamento.”

Moro trocou a 13ª Vara Federal de Curitiba pela Esplanada dos Ministérios, abandonando 22 anos de magistratura, sob a alegação de que passara quatro anos e meio à frente da Lava Jato com medo de que uma “virada de mesa” comprometesse todo o esforço anticorrupção. Alimentou a ilusão de que, ocupando um lugar na grande mesa de Brasília, obteria avanços que tornariam a virada impossível.

Uma das ambições de Moro era impedir a reversão da jurisprudência do Supremo que autorizou a prisão de larápios condenados em segunda instância. Não conseguiu. A Suprema Corte revisou a regra. E condenados graúdos ganharam o meio-fio, entre eles Lula.

Desejava aprovar no Congresso um ambicioso pacote anticrime e anticorrupção. Após uma tramitação protelada por sucessivos golpes de barriga, assistiu à desfiguração da proposta. Sugeriu um lote de vetos a Bolsonaro. O presidente ignorou a maioria de suas sugestões.

Moro fingia não notar, mas desfilava pelos corredores de Brasília como um sub-Moro. Tornara-se um personagem menor do que a fama que havia adquirido à frente da Lava Jato.

A diminuição da estatura de Moro não se devia apenas à divulgação das mensagens que ele trocou com o chefe da força-tarefa de Curitiba, Deltan Dallagnol, no escurinho do Telegram. O que mais contribuía para o encolhimento do ex-juiz era o comportamento de Bolsonaro.

No alvorecer do governo, o presidente prometera “carta branca” a Moro, endossando suas prioridades legislativas e entregando a ele a engrenagem do Coaf. Quando o primogênito Flávio se enrolou no caso da rachadinha, Bolsonaro se transfigurou. Rasgou a carta branca e anestesiou os planos anticorrupção do seu ministro. Moro calou.

Bolsonaro retirou o Coaf do organograma do Ministério da Justiça, transferindo-o para os fundões do Banco Central. Moro vergou a coluna. O presidente enviou à bandeja o escalpo do auditor fiscal Roberto Leonel, que fora importado da força-tarefa de Curitiba. Moro dobrou os joelhos em silêncio.

Bolsonaro passou a chamar de “perseguição política” a investigação em que o Ministério Público do Rio maneja dados do Coaf para apurar os indícios de que Flávio Bolsonaro cometeu os crimes de peculato, corrupção e lavagem de dinheiro. Moro não deu um pio.

Moro absteve-se de piar também quando Bolsonaro desdenhou do inquérito em que a Polícia Federal concluiu que o ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) desviou verbas públicas no esquema das candidatas laranja do PSL de Minas Gerais.

Todo aquele lero-lero de Moro sobre fazer “um juízo de consistência” de eventuais denúncias contra integrantes do governo, toda aquela conversa sobre tomar providências saneadoras sem “esperar as Cortes de Justiça proferirem o julgamento”, tudo aquilo não passava de mais uma versão de conversa fiada.

De resto, Bolsonaro vinha ensaiando uma intervenção no comando da Polícia Federal há pelo menos oito meses, desde agosto do ano passado. Agiu às claras. Na época, Bolsonaro soou mais Bolsonaro do que o habitual.

O presidente queria intervir na superintendência da PF no Rio, berço das complicações penais do Zero Um Flávio. “Quem manda sou eu”, disse Bolsonaro. Ameaçou trocar também o agora demitido diretor-geral Maurício Valeixo: “Eu tenho poder de veto. Ou vou ser um presidente banana agora? Cada um faz o que bem entende e tudo bem? Não.”

Levado à frigideira, Moro foi ficando. Não levou a boca ao trombone nem mesmo quando Bolsonaro ameaçou, em reunião com secretários de Segurança dos Estados, recriar a pasta da Segurança Pública, deixando Moro só com a Justiça, sem a PF.

Sergio Moro contribuiu para a sua própria fritura. Esqueceu de traçar uma linha a partir da qual não aceitaria interferência de Bolsonaro na autonomia que lhe foi prometida. Ao não fixar um limite, permitiu que Bolsonaro o tostasse na gordura de sua própria biografia.

É nesse contexto que o inquérito aberto no Supremo constitui uma oportunidade para que Moro tente se reconciliar com a imagem que faz de si mesmo. Bolsonaro e seu clã jogam na confusão. Até ontem, chamavam Moro de “herói”. Agora, o chamam de “traidor”.

Moro já percebeu que, numa briga com gambás, mesmo ganhando, o sujeito sai fedendo. Para reduzir o odor, o ex-ministro terá de conduzir Bolsonaro e seu governo numa excursão pelos nove círculos do inferno. O primeiro passo da jornada é a exibição de provas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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