Passaporte para a liberdade – FERNANDO REINACH, ESTADÃO

O problema para implementar uma carteirinha é descobrir se cada pessoa foi infectada

A ideia surgiu na Inglaterra, depois na Itália e agora é discutida nos Estados Unidos. Ela é bastante simples: fornecer para as pessoas que já foram infectadas pelo novo coronavírus um documento atestando que a pessoa está livre para circular e está excluída de todas as medidas de contenção por já estar imune à doença. Essas pessoas poderiam assumir as funções essenciais na sociedade e seriam as primeiras a sair da quarentena. 

À medida que a população fosse sendo infectada e curada, mais pessoas teriam esse passaporte para a liberdade, e a sociedade poderia liberar o distanciamento aos poucos, sem nenhum risco. No Brasil nós já temos um documento como esse que atesta que estamos livres de inúmeros vírus. Ele se chama carteirinha de vacinação. Sem essa carteira de vacinação as crianças não podem frequentar a escola, pois podem contrair doenças e passar para os outros. Os adultos também têm essa carteira pois são vacinados anualmente contra gripe e outras doenças. Quando a vacina contra o coronavírus estiver disponível, cada um de nós terá em sua carteira de vacinação um pequeno carimbo indicando que a pessoa foi vacinada e não representa perigo para a comunidade.

Mas hoje não temos ainda a vacina e a única maneira de nos tornarmos imunes ao novo coronavírus é contrairmos a doença. Eu, pessoalmente, se tivesse certeza de que não cairia no grupo dos 20% que precisam de tratamento hospitalar, tentaria me infectar o mais rápido possível, mas com 20% das pessoas infectadas sendo hospitalizadas e aproximadamente 1% ou 2% vindo a falecer estou aqui quietinho na minha quarentena.

O problema para implementar o tal passaporte/carteirinha é como descobrir se cada pessoa já foi infectada. Em teoria bastaria testar todas as pessoas regularmente, os 220 milhões de habitantes do Brasil. Aí quem apresentasse anticorpos contra o vírus poderia receber o carimbo na carteira e estava liberado, não somente de novos testes, mas também da quarentena. Um mês depois todas as pessoas seriam testadas novamente para saber quem contraiu a doença sem apresentar sintomas no mês anterior. Os com sintomas já são testados na entrada do hospital e receberiam o carimbo no dia da alta. E esse processo seria repetido até todos terem o carimbo e a sociedade voltar ao normal. Nesse momento a doença estaria totalmente sob controle e a sociedade, imunizada. Se isso ocorrer de forma gradual, os hospitais terão leitos suficientes para tratar todos.

Mas isso é impossível. E a razão é o pequeno número de testes disponíveis. Dificilmente esses números absurdos de testes (centenas de milhões) estarão disponíveis nos próximos meses. Além disso, enquanto a proporção de brasileiros infectados ainda for muito baixa, testar todo mundo seria um desperdício enorme de recursos. 

E tem outro problema. Que se saiba, por enquanto, nenhum país sabe a fração de sua população que foi infectada pelo vírus. O que sabemos hoje é o número de pessoas com sintomas que foram testadas, mas nessa conta não entram todas as pessoas que foram infectadas e apresentam sintomas leves. Se temos, por exemplo, 30 mil pessoas que testaram positivos quantas serão as pessoas realmente infectadas, 300 mil ou 3 milhões?

Mas existe uma solução capaz de começar a resolver esse problema com um número pequeno de testes. Ela consiste em selecionar ao acaso na população um número de pessoas e testar essas pessoas para a presença de anticorpos contra a doença. Se testarmos 500 pessoas selecionadas realmente ao acaso em uma cidade e 25 delas já apresentarem o anticorpo podemos dizer que 5% da população já foi infectada. Se a cidade tiver 1 milhão habitantes podemos ter razoável certeza de que na cidade há 50 mil pessoas que já foram infectadas. Se nessa região só tiverem sido identificados 20 mil pessoas com a doença, podemos inferir que 30 mil tiveram a doença sem perceber. 

É exatamente isso que dois grupos de cientistas estão fazendo no Brasil. Um dos grupos está fazendo esse experimento no Rio Grande de Sul e já começou a coletar as amostras na região. 

Um segundo grupo está pronto para iniciar o mesmo estudo na cidade de São Paulo. Para iniciar, só está esperando a aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), um órgão do Ministério da Saúde que avalia do ponto de vista ético todas as pesquisas feitas no Brasil com seres humanos. O bom é que durante essa crise a Conep tem sido muito ágil na aprovação de estudos científicos que ajudem nossa luta contra a pandemia. 

O objetivo da Conep é garantir que as pesquisas tragam real benefício para o indivíduo e para a sociedade. Nesse caso as pessoas que doarem sangue para a pesquisa saberão se já estão imunes ao vírus e a sociedade poderá se organizar para relaxar o distanciamento social.

A vantagem de se conduzir esse levantamento é que saberemos quantas pessoas já foram infectadas pelo vírus em São Paulo (incluindo os assintomáticos). Se o número for muito baixo, ainda temos um longo período de sofrimento pela frente, mas, se for alto, o fim da quarentena está logo adiante. 

Além de esse dado ser essencial para os governadores decidirem sobre quando relaxar a quarentena, vai ser possível decidir se já vale a pena testar mais pessoas e começar a colocar carimbinhos verdes nas carteirinhas de vacina das pessoas. Muitos amigos meus estão torcendo para serem sorteados na pesquisa em São Paulo e terem o privilégio de saberem logo se já estão imunes ao coronavírus. Mas não se preocupe, se você não for sorteado na primeira pesquisa pode ser nas seguintes, pois elas terão de ser repetidas com certa frequência. O importante é participar!

É BIÓLOGO

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