PLANO DE VACINAÇÃO TEM A SOLIDEZ DE UMA GELATINA – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

Ao retardar a elaboração de um plano de vacinação contra a Covid-19Jair Bolsonaro revelou-se intelectualmente lento. Ao elaborar um plano em cima do joelho, para cumprir um ultimato do ministro Ricardo Lewandowiski, do Supremo Tribunal Federal, o governo Bolsonaro mostrou-se eticamente ligeiro. As duas velocidades são insultuosas.

A lentidão intelectual do presidente ofende até o senso comum. Com a pandemia a pino, é inconcebível não fazer nada para apressar a obtenção do único remédio capaz de deter o vírus. A ligeireza moral transforma em suco o lero-lero segundo o qual o Brasil está “acima de tudo”. Fazer qualquer coisa em reação a uma intimação judicial reforça a convicção de que o interesse nacional está abaixo das idiossincrasias presidenciais.

Despejado sobre 193 páginas, o plano nacional para a vacinação da população contra a Covid-19 é impreciso, incompleto e insano. A imprecisão é escancarada na ausência de uma data para o início da imunização. A incompletude revela-se no reconhecimento de que faltam vacinas para todos. A insanidade é denunciada pela insistência em menosprezar uma vacina disponível no Butantan.

Alega-se que a definição da data para o início da vacinação depende da liberação de uma vacina pela Anvisa. Não é uma boa explicação. Mas é uma ótima confissão. O governo está num mato sem vacina porque apostou suas melhores fichas no imunizante com selo de Oxford, que tropeçou na fase de testes.https://fsavi.com.br/wp-admin/DOC%20DIGIT_files/928W5r5IndTfocT3VdUV-AB8UVlc0JbnGWyFZsei5gU.html

O planejamento oficial estima que a União terá 108 milhões de doses de vacina para imunizar os brasileiros dos grupos prioritários no primeiro semestre. Considerando-se as perdas e a necessidade de aplicar duas doses, serão vacinadas 51,4 milhões de pessoas. É pouco, muito pouco, pouquíssimo.

Há nesta terra de palmeiras algo como 212 milhões de habitantes. Pelas contas da própria pasta da Saúde, a imunidade coletiva será alcançada quando 70% da população for vacinada. Coisa de 148 milhões de pessoas.

O plano anota que “o Brasil já garantiu 300 milhões de doses de vacinas.” O diabo é que a conta inclui a vacina da logomarca Oxford-AstraZeneca, que ninguém sabe quando chega; a vacina do consórcio Covax, da OMS, que ninguém sabe qual será; e a vacina da Pfizer, que o documento reconhece estar em fase de “negociação.”

O governo negocia às pressas com a Pfizer depois que Bolsonaro mandou rasgar, há um mês e meio, protocolo que o general Eduardo Pazuello, suposto ministro da Saúde, assinara com o Butatan. Previa a aquisição de 46 milhões de doses da “vacina chinesa do João Doria.”

No plano enviado ao Supremo, a CoronaVac ainda não consta do rol de vacinas adquiridas pela União. Ironicamente, o documento relata que a vacina testada em parceria com o Butantan resultou em “mais de 90% de soroconversão para anticorpos neutralizantes durante as fases posteriores do ensaio de fase II.” Quer dizer: não é por razões técnicas que a vacina vem sendo preterida.

Como se tudo isso fosse pouco, 36 especialistas que assessoraram o governo na elaboração do plano de vacinação subscreveram uma carta reveladora. Nela, os doutores dizem que tomaram conhecimento da existência do documento pela imprensa. Embora seus nomes constem da peça, eles esclarecem que não tiveram a oportunidade de referendar o conteúdo.

Nas próximas semanas, a ausência de vacinação ganhará ares de crise no Brasil. Que crescerá na proporção direta do aumento da exibição de cenas de pessoas se vacinando em outros países. Respira-se no Brasil uma atmosfera burlesca. Em governos anteriores, as crises eram provocadas pela oposição. Hoje, Bolsonaro é quem faz a crise que pode carbonizar sua Presidência.

Desde o início da pandemia, o presidente sabia que a crise sanitária teria um custo. Imaginou que poderia repassar a fatura para governadores e prefeitos. Não colou. Bolsonaro finge não notar. Mas já começou a pagar a conta do seu descaso.

O plano de vacinação entregue ao Supremo, sólido como uma porção de gelatina, é uma tentativa de regatear o preço da crise. Se continuar pechinchando, Bolsonaro elevará o prejuízo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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