Por que Bolsonaro, antes abatido, contraiu coronavírus agora – FLAVIA BAGGIO, FOLHA


‘Presidente, desde que o Queiroz foi preso que o senhor está em silêncio’, disse o assessor da Presidência a ele

O assessor da Presidência chegou ao Palácio do Planalto para uma reunião de emergência. Encontrou, na sala de TV, um Bolsonaro abatido, ainda com seu pijama com estampa de revólver, assistindo ao filme “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu”.

“Presidente, desde que o Queiroz foi preso que o senhor está em silêncio”, falou o assessor. “Já está ficando suspeito.”

“Mas é todo dia isso daí?”, reclamou o presidente. “Quando eu falo, reclamam. Quando eu fico quieto também reclamam?”

Um mordomo entrou na sala trazendo um prato de miojo e um pote de requeijão. O assessor continuou.

“Estamos num momento delicado. Além das investigações, sua popularidade está caindo drasticamente.”

Bolsonaro pegou o requeijão, pôs no miojo e deu uma garfada. “No tocante a essa questão, qual é seu conselho nisso daí?”

“O senhor pode criar uma nova polêmica”, sugeriu o assessor.

“Eu acabei de sequestrar um cachorro. Quer polêmica maior que isso daí?”, gritou o presidente, cuspindo miojo.

“Precisa ser algo mais polêmico.” O assessor abriu um caderninho. “O senhor pode lançar o concurso Ministro por um Dia. Qualquer cidadão de bem pode participar.”

Bolsonaro começou a trocar os canais da TV, desanimado. “A Damares já lançou um concurso de máscara idiota.

Deu até o prêmio para uma máscara de gado. Mesmo assim, continuam no meu pé.”

O assessor virou a página do caderno. “Tem uma ideia mais drástica. O senhor pode chamar como ministro da Saúde… o caubói do Marlboro.”

“Já convoquei gente que mente no currículo para ministro da Educação. Botei até ator da ‘Malhação’ na Secretaria da Cultura e a Folha continuou enchendo o meu saco”, choramingou o presidente.

O assessor virou mais algumas páginas. “Outra ideia seria mandar azulejar a Amazônia.” Bolsonaro interrompeu. “O Salles já está destruindo tudo.”

O assessor fechou seu caderno. “Bom, tem uma última ideia. E se o senhor anunciasse que está com Covid? Isso depois de se reunir com o embaixador americano?”

Os olhos de Bolsonaro brilharam. “E finalmente o Trump voltaria a pensar em mim?”

O assessor continuou: “O senhor poderia dizer que se curou com cloroquina. Desencalharia os milhares de comprimidos do Exército”.

“Gostei. Manda trazer esse Coronga aí!” Bolsonaro voltou a zapear a TV e parou no filme “Matadores de Velhinhas”.

Flávia Boggio
Roteirista e autora do núcleo de humor da Globo

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