Por quem os sinos dobram – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM

Uma política genocida

Por Ricardo Noblat – 19 abr 2020

Ilustração de Jair Bolsonaro usada pela ‘The Economist’ em sua última edição: ‘isolamento’ e ‘insanidade’ The Economist/Reprodução

Para sujeitos como Donald Trump e Jair Bolsonaro, fora a deles não existe verdade. E a deles, naturalmente, pode ser uma, hoje, e outra amanhã de acordo com as circunstâncias. Há uma quantidade expressiva de pessoas que pensam e agem como eles – aqui, no momento, os que, por exemplo, defendem a salvação da Economia à custa da morte dos vulneráveis ao coronavírus.

Os vulneráveis não são poucos no Brasil. E não incluem só os idosos, como tanto se destacou de fevereiro último para cá. Vulneráveis são também aqueles que têm ao menos um dos cinco fatores que podem agravar o Covid-19: hipertensão, diabetes, doenças cardíacas e pulmonares. Sabe quantos são? Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz foram atrás da resposta.

Estimam que sejam cerca de 50 milhões de pessoas acima de 18 anos de idade. Um em cada três brasileiros. O vírus não discrimina entre jovens e velhos. Até ontem, eram 36.599 os casos confirmados, e 2.347 o de mortos que dobrou em uma semana. À legião dos que podem ser alvos da doença devem ser juntados os que padecem de condições de vida precárias.

Os desempregados – 12 milhões. Os sem tratamento de rede de esgoto – 10 milhões. Os sem água – 35 milhões. Os analfabetos – 12 milhões. Os sem educação de base – 70 milhões.  Os invisíveis – assim chamados os que esperam receber o auxílio emergencial de 600 reais por mês -, seriam 54,5 milhões. Na verdade, devem passar dos 70 milhões. É por toda essa gente que os sinos dobram.

Enquanto dobram, no Estado da Insensatez, que é todo o território onde o presidente da República pisa para reunir-se com seus serviçais, Bolsonaro planta mentiras e colhe o sofrimento alheio. É preciso salvar a Economia, ele prega. Fazê-la rodar para que sua reeleição possa ser salva, mas isso ele esconde. Portanto, as medidas de isolamento devem acabar o mais depressa possível.

É tal seu desespero que Bolsonaro está disposto a passar por cima de todos que atravessem seu caminho. Há dois dias, atacou com virulência o presidente da Câmara, acusando-o de conspirar para derrubá-lo juntamente com governadores e ministros do Supremo Tribunal Federal. E, ontem, apontou para o prédio do tribunal como quem sugere que seus ocupantes são inimigos do povo.

“O Brasil está mergulhando no caos. A economia não roda dessa forma. Vai faltar dinheiro para pagar servidor público. O vírus e o desemprego são os maiores problemas”, tocou terror ao recepcionar um grupo de seguidores ao pé da rampa do Palácio do Planalto. Bolsonaro disse ainda que o tribunal o impede de revogar o isolamento, mas que continuará tentando mesmo assim.

Desempenhou outra vez o papel que mais aprecia – o de vítima, quando, de fato, é o sócio mais poderoso que o coronavírus poderia ter encontrado no Brasil. Bolsonaro estimula a desobediência civil que, um dia, poderá se voltar contra ele, engolindo-o. Se não for antes interditado pelo Congresso, com certeza em 2022 será julgado por sua política de estímulo ao genocídio.

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