Primeira explosão nuclear, início da Era Atômica, completa 75 anos – ANÁLISE, IGOR GIELOW, FOLHA


Arco narrativo do mundo sob o átomo tem inovação e esperança, mas começa e termina na guerra

Igor Gielow
SÃO PAULO
“Agora eu me tornei a Morte, a Destruidora de Mundos.”

Em 1965, o físico americano Julius Robert Oppenheimer descreveu assim, com uma fala do deus Vishnu no épico hindu “Baghavad Gita”, a sensação após a primeira explosão nuclear do planeta, ocorrida 20 anos antes sob sua supervisão científica.

Ninguém sabe se ele estava floreando a história, já que os relatos disponíveis trazem um Oppenheimer introspectivo após o clarão que ninguém havia antecipado naquela manhã de 16 de julho de 1945, no campo desértico de testes próximo de Alamogordo (Novo México, EUA).

Mas ele tinha inclinações filosóficas, tanto que chamou o experimento de Trinity, Trindade em inglês, em referência aos sonetos metafísicos do inglês John Donne, da virada do século 16 para o 17.

Seja como for, a Era Atômica começava ali, sob o signo da guerra. O manejo da radioatividade remontava ao fim do século 19, com a invenção do raio-X pelo alemão Wilhelm Röntgen e as experiências do francês Henri Becquerel e da franco-polonesa Marie Curie.

Como em inúmeras inovações tecnológicas ao longo da história, foi o conflito que acelerou sua aplicabilidade prática e expandiu suas fronteiras.

Quando os alemães Otto Hahn e Fritz Strassmann conseguiram em laboratório fazer a fissão nuclear, cunhando assim o termo, os alarmes soaram no mundo científico. Era 1938, e Adolf Hitler se preparava para tentar conquistar a Europa, e a União Soviética, quiçá o mundo.

Fugitivo da barbárie nazista, o maior físico do século 20, o judeu alemão Albert Einstein, escreveu em 1939 com o colega húngaro Leó Szilárd uma carta ao presidente americano, Franklin Delano Roosevelt.

O texto o exortava a fazer a bomba antes que Hitler a fizesse: a possibilidade de que a liberação imensa de energia a partir da divisão infindável de núcleos de átomos estivesse ao alcance do ditador em forma de uma arma era aterradora.
Em 1941, dois dias antes de entrar na Segunda Guerra Mundial, Roosevelt abraçou a ideia. No ano seguinte, estava de pé o Projeto Manhattan —empreitada com 100 mil pessoas para fazer a bomba. Deu certo.

Naquela madrugada de julho de 1945, tudo estava pronto para uma detonação às 2h. Só que a chuva na faixa de deserto adiou sucessivamente os planos, que de resto não eram infalíveis.

Dois testes preliminares haviam sido inconclusivos, e os físicos fizeram um bolão sobre qual seria a potência atingida caso o urânio colapsado pela explosão inicial realmente entrasse numa enorme reação em cadeia.

Por fim, aos 45 segundos das 5h29, uma bola de fogo irrompeu no céu ainda escuro. “A força explosiva foi a prevista, mas a luz vívida foi muito mais impressionante do que poderíamos esperar”, resumiu o gerente do Manhattan, general Leslie Groves.

As falas dele, de Oppenheimer e de vários dos 425 envolvidos com o teste foram compiladas ao longo dos anos pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, uma organização acadêmica que nasceu e cresceu na Era Atômica.

Groves e os outros estavam espalhados por quatro bunkers a 9,1 km de distância do local da explosão. A “luz vívida” demorou 30 milionésimos de segundo para atingi-los; a onda de choque, 30 segundos. Dois bombardeiros B-29 circundando o local fracassaram em captar imagens aéreas.

Todos tinham pressa. A guerra na Europa havia acabado em 8 de maio, e o cerco americano sobre o Japão se acentuava. O presidente Harry Truman, mais do que precisar de uma mítica arma que encerrasse o conflito, precisava mostrar os dentes para a vitoriosa União Soviética de Josef Stálin.

Por isso, ordenou que o teste fosse feito antes da grande conferência que definiu o retalhamento da Alemanha vencida, em Potsdam, que começaria no dia 17 de julho. Sob risco de fracasso, ele funcionou.

O resto é história. Vinte e um dias depois da explosão, a bomba Little Boy (menininho, em inglês) era jogada sobre Hiroshima, no Japão, auxiliando no esforço para o fim da guerra —a invasão do império de Hiroito pelos soviéticos é um fator mais palpável, mas o que vale no Ocidente é a versão.

Curiosamente, a Little Boy não foi o modelo de bomba testado em Alamogordo. Era um artefato mais rudimentar em que uma carga de urânio-235 era disparada sobre outra, para criar a reação em cadeia.

Perigosa de manejar, ela era contudo mais certeira no quesito “vai funcionar”. Os EUA haviam testado em seu solo uma bomba do tipo Fat Man (homem gordo), mais sofisticada e na qual havia uma implosão compressiva sobre seu núcleo de plutônio-239.

Ainda assim, os militares preferiram apostar na Little Boy. Hiroshima foi vaporizada em 6 de agosto, e, três dias depois, uma Fat Man foi jogada sobre Nagasaki. Ao todo, mais de 200 mil pessoas pereceram.

Oppenheimer caiu em desgraça relativa após visitar Truman e dizer que se sentia “com sangue nas mãos”.

O que se seguiu foram quatro décadas de uma corrida insana entre americanos e soviéticos, passando pela evolução da arma ao estágio de fusão de núcleos atômicos: a bomba de hidrogênio, muito mais poderosa.

A mais potente de todas, a chamada Bomba Czar, foi lançada pelos soviéticos nos confins do Ártico em 30 de outubro de 1961. Gerou 50 megatons, ou 3.300 vezes a explosão de Hiroshima —que havia sido um pouco inferior à de Alamogordo.

Toda uma ciência se desenvolveu enquanto mísseis e bombardeiros garantiam a doutrina MAD (sigla inglesa para Destruição Mútua Garantida, ou “louco” no acrônimo) na Guerra Fria.

Aí entrou a esperança. A energia nuclear, não poluente enquanto controlada, virou sinônimo de futuro. Os anos 1950 moldaram a imagem do átomo como mola de uma sociedade com fontes infindáveis para progredir, e logo faria funcionar de submarinos (1954) a satélites (1961).

O clima róseo do desenho animado “The Jetsons” (1962-63) andava lado a lado com o terror da destruição atômica, que quase aconteceu no mesmo período com a crise dos mísseis de Cuba (1962) e foi ressuscitado antes do ocaso da Guerra Fria. O cinema americano traduziu isso em invasões alienígenas; o japonês, em Godzilla (1954).

A Era Atômica trouxe consigo avanços impressionantes na medicina. Do seu antecessor raio-X, hoje há sofisticadas tomografias de qualquer pedaço do corpo humano, em 3D, tudo cortesia de radioisótopos. Tratamentos de câncer ganharam uma arma até então inaudita.

Não que isso não tenha tido custos, mesmo na paz. Das vítimas do césio-137 em Goiânia (1987) às grandes tragédias de Tchernóbil (Ucrânia soviética, 1986) e Fukushima (Japão, 2011), os alertas sobre os riscos de lidar com o poder do Sol são vários.

Tanto é assim que a indústria nuclear perdeu tração desde o desastre japonês de 2011. Países como a Alemanha reduziram drasticamente o átomo de sua matriz energética. Assim, o mundo atômico idealizado nos anos 1950 hoje é uma realidade menor: 4% da energia mundial vêm dali.

Analistas apostam num ressurgimento, dadas as vantagens comparativas do nuclear. Enquanto isso não ocorre, o arco narrativo de Alamogordo vive uma repetição: é em torno da guerra que o tema atômico gira hoje.

Setenta e cinco anos depois, EUA e Rússia, o Estado sucessor da União Soviética, se digladiam sobre o controle de suas armas nucleares. Donald Trump se retirou de acordos importantes no setor, enquanto Vladimir Putin desenvolve novas armas para conter o que vê como ameaça americana.

Nesse ovo-e-galinha, especialistas veem um risco cada vez mais aumentado do uso de armas nucleares. Perigo ainda ampliado pelas disputas dos atores menores com grandes rivalidades, como Israel e um dia o Irã, e como Índia e Paquistão.

Ou “mad dogs”, cachorros loucos como a Coreia do Norte. Ou ainda terroristas com acesso a algum tipo de arma, talvez a versão “suja” a partir de algum aparelho antigo de raio-X.

Já houve no mundo 70 mil ogivas nucleares, perto do fim da Guerra Fria. Hoje são 13,4 mil armas no mundo, 3.900 prontas para uso e 92% delas nas mãos de americanos e russos —apesar dos alertas de Washington sobre a ascensão chinesa, a realidade olha no retrovisor.

Os avanços científicos que fizeram da energia nuclear o passaporte para um futuro incerto por ora estão perdendo a corrida. Oppenheimer afirmou que a melhor definição do teste inaugural da Era Atômica era de um de seus principais auxiliares, o físico de Harvard Kenneth Bainbridge.

“Agora somos todos f.d.p.”

Talvez tenha sido profético.

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