Primeiro teste de Queiroga: revogar o protocolo da cloroquina – VERA MAGALHÃES, GLOBO

PANDEMIA

Por Vera Magalhães25/03/2021 • 09:16Queiroga e Zé GotinhaQueiroga e Zé Gotinha | AFP

Qual a medida mais urgente que o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, deveria adotar? Médicos e cientistas são unânimes: coordenar um lockdown nacional e urgente, combinado com um auxílio econômico mais efetivo que o auxílio emergencial já iniciado, e organizar a compra de vacinas em quantidades muito maiores que as atuais.

Farei um post apenas com o detalhado programa que a epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do Plano Nacinal de Imunização, sugeriu.

O problema com essas medidas tão essenciais e urgentes é um só: elas requerem uma autonomia política que o ministro certamente não tem. Coordenar lockdown, ou ao menos defender, vai de encontro à postura de Jair Bolsonaro até aqui. Nesta semana mesmo ele foi ao Supremo Tribunal Federal contra Estados que adotaram medidas mais leves que um lockdown.

O problema da margem de manobra do novo ministro é tal que mesmo uma medida bem mais simples, e que ajudaria a desanuviar o cenário de desinformação e confusão montado na Saúde desde que Bolsonaro nomeou Eduardo Pazuello como seu capataz na pasta, já é de implementação duvidosa.

Afinal, Pazuello vai revogar o protocolo, assinado pelo general a mando do capitão, que prescreve o uso de cloroquina e hidroxicloroquina para casos leves e iniciais de covid-19?

O tal protocolo, que dois médicos, Luiz Mandetta e Nelson Teich, se recusaram a permitir, e que por isso foram demitidos, foi assinado por Pazuello em 20 de maio do ano passado. 

Ele receita, inclusive com dosagens, cloroquina ou hidroxicloroquina, associadas a azitromicina, para pacientes com sintomas leves de covid-19, nas fases 1 e 2 da doença. Para evitar responsabilização judicial do governo pela indicação de medicamentos sem eficácia alguma e que já foram associados a efeitos adversos graves em diversos estudos em muitos países, o Ministério da Saúde faz a ressalva de que eles devem ser prescritos por médicos, que têm “autonomia” para definir o melhor tratamento.

Queiroga indicou que vai nomear o pneumologista Carlos Carvalho, do Hospital das Clínicas, para cuidar dos novos protocolos de tratamento da covid-19. Carvalho foi indicado a ele pelo cardiologista Roberto Kalil, do HC e do Sírio Libanês, amigo de décadas do ministro e um dos seus conselheiros mais próximos.

A ideia de Queiroga era nomear Carvalho para um cargo no ministério, mas ele alegou que precisa manter suas atividades atuais e deve continuar em São Paulo, embora colaborando com o ministério. A recomendação de Carvalho será clara: revogar o protocolo imediatamente.

Queiroga terá autonomia para fazer isso e, assim, atestar o absurdo que foi a ordem dada por Bolsonaro e seguida por Pazuello? E atestar que os medicamentos, que até hoje são defendidos pelos bolsonaristas, que advogam um tal “kit covid” que já levou inclusive pessoas à morte, não vale nada?

Esta é a opinião médica de Queiroga como presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Se manifestou contra esses remédios em várias oportunidades, mas desde que foi nomeado por Bolsonaro tem sido bem menos enfático. Em entrevista nesta quarta-feira chegou a dizer que médicos têm de tentar de tudo, que muitos medicamentos mostraram eficácia quando usados off-label (fora da prescrição da bula) em casos de outras doenças.

Queiroga estará em São Paulo nesta quinta, visitando a UTI do HC e se reunindo com Carvalho e Kalil. Sua assertividade quanto à revogação imediata do protocolo Pazuello será a condição para que o pneumologista se junte ou não à sua equipe. Um “não” agora, que viria da hesitação do ministro, seria uma falha num teste infinitamente mais simples que decretar lockdown e comprar vacinas.

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